O tempo, dentro da sala de cirurgia, se move de forma diferente. Para Clara, o mundo exterior havia desaparecido. Não havia mais Nina Queiroz, nem Sra. Montenegro. Havia apenas a Dra. Mendes, a neurocirurgiã, e o corpo quebrado sobre sua mesa.
O corpo de Arthur.
As luzes cirúrgicas eram sóis impiedosos, iluminando o campo de batalha de vasos sanguíneos rompidos, ossos fraturados e tecido cerebral inchado. O trauma do impacto do caminhão foi brutal. A tomografia mostrava um hematoma subdural massivo e múltiplas hemorragias. Ele estava morrendo.
Uma parte sombria e ferida de Clara sussurrou em sua mente. Deixe-o ir. Ele merece. É a sua liberdade.
Ela olhou para o rosto dele, agora pálido e vulnerável sob a luz. Lembrou-se de seu último ato: jogar o próprio corpo, o próprio carro de luxo, na frente dela. Um escudo de metal e osso para salvá-la.
Lembrou-se de suas últimas palavras, um pedido de desculpas e um presente de liberdade. "Assine os papéis."
A cirurgiã dentro dela, a mulher que fez um juramento de salvar vidas, silenciou a voz da vingança.
— Bisturi. — sua voz era calma, um contraponto ao bipe frenético dos monitores.
As horas seguintes foram uma dança de precisão mortal. Suas mãos, que haviam tremido de raiva e dor, agora eram de uma firmeza sobre-humana. Ela navegou pela paisagem delicada de seu cérebro, o mesmo cérebro que havia concebido tanta dor para ela.

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