Quando Florence acordou, viu, sentada ao lado da cama, uma policial de uniforme. A mulher abriu um leve sorriso, transmitindo uma tranquilidade inesperada.
— Você acordou? Quer um pouco de água? — Perguntou a policial, levantando-se para servir um copo com cuidado. — Foram só ferimentos leves. Nada grave.
— Obrigada.
Florence se apoiou para pegar o copo, mas suas mãos ainda tremiam. O medo persistia, ecoando em cada batida de seu coração.
A policial a observava em silêncio, sem pressioná-la. Somente quando Florence começou a se acalmar, ela finalmente prosseguiu.
— O Gabriel também está bem, mas vocês dois estão apresentando versões diferentes. Por isso, preciso do seu depoimento.
O movimento de Florence parou no meio do caminho. Ela encarou a policial, incrédula.
— Versões diferentes? Como assim?
Era absurdo. Como algo tão evidente poderia ser tratado como uma questão de versões?
A policial respirou fundo, sem rodeios:
— Gabriel disse que estava bêbado e que foi isso que o deixou agressivo. Ele apresentou um laudo psicológico do exterior e afirmou que você foi voluntária ao jantar e ao passeio no cinema. Por isso, ele acreditou que você consentiu em ter algo a mais com ele.
A respiração de Florence falhou. Era como se o ar se recusasse a entrar. A pressão no peito aumentava, dolorosa e sufocante.
— Jantar e cinema significam consentir? Desde quando? Em que mundo isso faz sentido? Eu disse que não!
— Florence, Gabriel afirmou que até sua mãe concordou.
As palavras vieram como um golpe. Florence sentiu a garganta travar. Não conseguiu dizer nada.
A policial ficou em silêncio por alguns segundos, depois tentou tranquilizá-la:
— Seu depoimento é fundamental agora. Nós vamos investigar tudo, pode ter certeza.
Ao ouvir isso, Florence soltou um suspiro fraco. Pelo menos alguém parecia disposto a ajudá-la.
Ela contou tudo, nos mínimos detalhes, explicando inclusive que o carro de Gabriel havia sido modificado. Não era a primeira vez que ele fazia algo assim.
A policial anotou cada palavra com atenção.
— Mais alguma coisa que queira acrescentar?
Florence hesitou antes de responder. Depois, disse lentamente:
Florence ficou olhando para a parede branca à sua frente, com o rosto pálido. Sentia-se vazia, como se toda a energia tivesse sido sugada de seu corpo. Como alguém tão insignificante poderia mudar alguma coisa?
Não sabia quanto tempo havia passado até ouvir vozes exaltadas do lado de fora.
Levantando-se com esforço, foi até a porta. Ainda sem abri-la, ouviu a voz firme e autoritária de Theo.
— Bando de incompetentes! Dei uma única tarefa pra vocês, e é assim que resolvem?
Através do vidro, Florence viu Theo encarando Bryan e Lyra, que estavam pálidos e visivelmente desconfortáveis. Lyra tremia, tentando se justificar:
— Sogro, eu… Eu não sabia que Gabriel faria algo assim. A Flor só… só estava se defendendo…
— Cale a boca! Está querendo bancar a inocente agora? Não finja que não sabia o que estava fazendo! Você mesma empurrou sua filha para ele! Gabriel é homem, claro que ia interpretar as coisas de outra forma! Se ela fosse tão correta assim, por que aceitou jantar e ir ao cinema com ele?
Theo, de braços cruzados, lançou um olhar fulminante para Lyra, que encolheu o pescoço, segurando as lágrimas sem ousar responder.
Bryan tentou intervir, protegendo a esposa:
— Pai, Lyra só achou que a família Barbosa fosse uma boa conexão para a Florence. Ela queria apresentá-los, só isso. Não sabia que as coisas iam chegar a esse ponto.

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