Ao perceber o olhar sobre si, Florence virou a cabeça de leve.
Lucian trajava um austero terno preto, os longos dedos apoiados na têmpora. O anel vermelho que usava refletia a luz do sol, emanando um frio quase sanguinário. Ao seu lado, Daphne estava inclinada, aparentemente dizendo algo. Os dois estavam muito próximos, e a expressão de Lucian era suave, quase gentil.
Florence desviou o olhar rapidamente, fingindo calma, e pousou a mão com tranquilidade.
— Obrigada.
— Não há de quê. — O homem ao seu lado seguiu seu olhar. — Aquele é o Sr. Lucian, não é? Parece bem dedicado à noiva, até a busca e leva pessoalmente.
Qualquer um podia perceber o favoritismo de Lucian por Daphne. Exceto ela, em sua vida anterior, que, como uma tola, esperava por ele, amava-o, sem enxergar a verdade.
Florence estava prestes a concordar, mas Lyra a puxou pelo braço.
— Já que o encontrou, vá cumprimentar seu tio.
— Não vou. — Florence soltou a mão dela e fez menção de se afastar.
— Você...
Lyra nem teve tempo de terminar a frase, interrompida pela voz repentina de Daphne.
— Sra. Lyra, Flor, que coincidência! E este aqui é...
Daphne, segurando o braço de Lucian, lançou um olhar avaliador ao homem ao lado de Florence.
Lyra, que já considerava Daphne uma dissimulada, ficou ainda mais convicta de sua má intenção depois do escândalo na família Avery. Ela se aproximou de Gabriel com um ar levemente provocador e disse:
— Este é Gabriel Barbosa, o jovem herdeiro da família Barbosa. Um verdadeiro cavalheiro e alguém de quem todos nós estamos muito satisfeitos.
O “nós” carregava um significado implícito que Florence não teve tempo de evitar. Ela percebeu imediatamente o olhar de Lucian endurecer levemente.
Gabriel, sempre educado, deu um passo à frente.
— Muito prazer, Sr. Lucian.
Lucian, no entanto, não olhou para ele. Seu olhar pousou distraidamente em Florence, enquanto um sorriso cheio de ironia dançava em seus lábios.
— Nós?
Depois, seus olhos passaram brevemente por Gabriel, com uma expressão indecifrável.
— Um verdadeiro cavalheiro.
Florence sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Suas mãos estavam frias de suor. As palavras de Lucian eram ditas de forma casual, mas carregavam um peso sufocante, como se a qualquer momento ele pudesse esmagá-la.
Daphne lançou um olhar desdenhoso para Gabriel, que passou despercebido pela maioria. Para ela, um homem como ele não era nada comparado a Lucian, mas certamente estava à altura de Florence. Ainda assim, ela não deixou transparecer seus pensamentos; pelo contrário, manteve um sorriso doce no rosto.
— O Sr. Gabriel parece ser uma ótima pessoa. Flor, aproveite bem e leve uma vida tranquila. Não é hora de ficar pensando em coisas... Inadequadas.
A insinuação era clara e fez Gabriel franziu as sobrancelhas.
Lyra, irritada, estava prestes a rebater, mas Florence a segurou. Se começassem uma discussão, seria exatamente o que Daphne queria.
Florence ergueu os olhos e olhou para Lucian, que permanecia impassível, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Ele sabia melhor do que ninguém quem havia cometido algo “inadequado”. Mas o silêncio dele era uma forma de apoiar Daphne e suas insinuações.
Com um sorriso frio, Florence puxou Lyra e disse:
— Mãe, Sr. Gabriel, vamos embora.
Gabriel, sempre cortês, despediu-se com um simples “Com licença” e abriu a porta do carro para Florence e Lyra.
Já no carro, Florence recebeu uma mensagem da professora Cecília: [Flor, sinto muito. O Sr. Lucian interveio e a escola concedeu uma vaga extra para Daphne na competição.]
Florence respondeu com frieza: [Eu já esperava por isso.]
Ela apertou o celular com força. Não era uma surpresa, mas ainda assim sentiu a respiração pesada e a sensação de impotência. Era como se estivesse presa em um redemoinho, sem conseguir se agarrar a nada.
Ela imaginava ter conquistado algo, mas continuava sendo esmagada.
Quantas vezes mais o destino a faria de tola?
…
No restaurante, Gabriel gentilmente puxou a cadeira para Florence e pediu uma xícara de chá quente com vinho para ela.
— Você parece preocupada. Não está se sentindo bem? Esse chá ajuda a espantar qualquer desconforto.
— Obrigada.
A gentileza de um homem como ele sempre era reconfortante, e Florence sentiu-se mais relaxada. Ela sorriu levemente, aceitando o gesto.
Lyra, notando a melhora na filha, sorriu satisfeita.
— Sr. Gabriel, não se preocupe, a Flor é apenas um pouco reservada. Ela demora, mas se abre.
— Não tem problema, Srta. Florence é encantadora. E... Muito bonita.
O olhar de Gabriel pousou diretamente no rosto de Florence, acompanhado por um sorriso caloroso.
Florence desviou os olhos, desconcertada, e tomou um gole do chá.
Depois do almoço, Lyra, claramente satisfeita com Gabriel, não conseguia esconder o sorriso. Fingindo atender a uma ligação, disse:
Gabriel sorriu e a seguiu. No caminho de volta, no entanto, algo começou a incomodá-la. Não sabia se era apenas paranoia, mas Gabriel parecia estranhamente lento para dirigir, parando em quase todos os semáforos, mesmo quando não precisava.
Florence, inquieta, olhava repetidamente para o relógio.
— Dá para apressar um pouco?
Gabriel, com um sorriso tranquilo, respondeu:
— Não se preocupe. Vai dar tempo.
Nos últimos minutos, finalmente chegaram ao estacionamento em frente ao campus. Florence rapidamente abriu a porta para sair, mas ouviu um clique. A porta estava trancada novamente.
Assustada, ela tentou abrir mais uma vez, mas sem sucesso. Quando se virou, encontrou Gabriel com o mesmo sorriso de sempre, mas algo em seus olhos havia mudado. Aquele brilho gentil agora era substituído por algo sombrio, perverso.
Ele lambeu os lábios, olhando para ela como um predador.
— Abra a porta, Gabriel! — Florence disse com firmeza, puxando o celular. — Ou eu chamo a polícia agora!
Gabriel riu, calmo, e apontou para a tela do carro com o dedo.
— Dê uma olhada no seu celular.
Florence baixou os olhos e viu que o sinal, antes cheio, agora estava zerado. Sem serviço. Foi então que percebeu: o carro tinha um bloqueador de sinal. O veículo se tornara uma prisão.
O pânico tomou conta de Florence, mas ela não podia se dar ao luxo de hesitar. Começou a bater freneticamente nas janelas do carro, gritando:
— Socorro! SOCORRO!
O estacionamento estava cheio de carros. Alguém tinha que ouvi-la!
Quase ao mesmo tempo, os faróis de um carro ao lado se acenderam. Um veículo de luxo, brilhando sob a luz da lua, chamava a atenção com sua elegância. Era o carro de Lucian.
Florence olhou para dentro do carro com esperança. Lá estava ele, sentado no banco de motorista, com sua expressão sempre impassível. Como um milagre, ela começou a gritar:
— Sr. Lucian! Sr. Lucian!
Por um instante, achou que ele a tinha visto. Mas, no segundo seguinte, uma mão delicada pousou no ombro de Lucian, puxando-o para o outro lado. Era Daphne. Ela o pressionou contra a porta, inclinando-se para beijá-lo profundamente.
O carro arrancou, ignorando os gritos desesperados de Florence.
Ela parou de respirar por um instante, o coração afundando no peito. Antes que pudesse gritar novamente, sentiu a mão de Gabriel cobrindo sua boca por trás.
— Mmm! Mmm!
Ela tentou se soltar, mas o aperto era forte, e o ar parecia sumir de seus pulmões. Seus olhos, desesperados, seguiram o carro de Lucian enquanto ele desaparecia na estrada, levando consigo qualquer chance de socorro.

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