MARKUS BLACKWOOD
A porta do meu escritório tremeu com as batidas violentas.
Eu estava sentado atrás da minha mesa, a única peça de mobília que eu tinha mantido do antigo ocupante. O resto das tralhas decorativas eu já tinha mandado o zelador queimar ou doar. Eu gostava de espaços limpos e funcionais.
Eu tinha tomado um banho rápido na suíte adjacente ao escritório e trocado a camisa manchada de sangue por uma cinza.
— Entre.
A porta se abriu com violência.
Paulo Torres entrou. Ele ainda usava o smoking da festa de gala da noite anterior, agora amassado, a gravata borboleta desfeita pendurada no pescoço como uma forca frouxa.
— COMO ASSIM EU ESTOU DEMITIDO?!
O grito dele reverberou pelas paredes vazias.
Terminei de assinar o formulário de rescisão contratual com minha caneta tinteiro, coloquei a tampa e voltei o olhar para ele.
— Bom dia, Dr. Torres. Vejo que recebeu o e-mail do RH.
— Está brincando? — Ele bateu as mãos na minha mesa, inclinando-se para frente. O rosto dele estava vermelho, veias pulsavam na testa. — Você me mandou um e-mail às seis da manhã me demitindo? Eu sou o Chefe de Cirurgia deste hospital há dez anos! Você não pode simplesmente chegar aqui, sentar nessa cadeira e me demitir por e-mail!
— Na verdade, eu posso. — Recostei-me na cadeira, entrelaçando os dedos sobre o colo. — Como Diretor Executivo e proprietário majoritário, eu tenho autoridade unilateral para reestruturar a equipe de liderança. E você, Paulo, é a primeira peça torta que estou removendo.
— Por que motivo?! — Ele berrou, cuspindo um pouco. — Porque eu não estava aqui ontem à noite? Era minha noite de folga! Eu tenho direito a folga!
— Um Chefe de Cirurgia está sempre de plantão para catástrofes de nível 1. — Falei, mantendo o tom baixo. — Está no seu contrato. Cláusula 4, parágrafo B. Mas não é apenas pela sua ausência ontem. Se fosse só isso, eu te daria uma suspensão.
Levantei-me. Torres recuou um passo, intimidado pela minha altura. Às vezes ter 1,90 tinha suas vantagens.
— Eu não tolero incompetência, Paulo. Mas o que eu tolero menos ainda é covardia e sabotagem. Você tem um histórico. — Apontei para uma pilha de pastas na minha mesa. — Relatórios de mortalidade acima da média em cirurgias que você supervisiona. Mas o que realmente chamou minha atenção foram as reclamações arquivadas. Reclamações que o antigo diretor escondia para você.
Torres empalideceu ligeiramente, mas tentou manter a postura.
— Isso é intriga da oposição. Médicos invejosos...
— Steven Neil. — Cortei. — Excelente cirurgião vascular. Pediu demissão há três meses. No relatório de saída, citou "ambiente de trabalho hostil e bloqueio sistemático de promoções".
Dei um passo em direção a ele.
— E Leah Hampton.
Os olhos de Torres se estreitaram.
— Aquela garota é um problema. Arrogante, insubordinada...
— Ela é a melhor cirurgiã de trauma que este hospital tem. — Minha voz endureceu. — E eu ouvi alguns testemunhos. Você a rebaixa constantemente. Critica procedimentos perfeitos. Tenta minar a confiança dela na frente de residentes. Por quê? Medo?
— Medo? — Ele riu, nervoso. — Eu sou Paulo Torres! Eu tenho mãos de...
Dra. Leah Hampton.
Especialização: Cirurgia de Trauma e Cuidados Críticos.
Formação: Harvard Medical School. Residência: Mount Sinai.
Abri a pasta. Havia cópias de seus diplomas, cartas de recomendação brilhantes que Torres devia ter ignorado, e uma foto 3x4.
Na foto, ela estava séria, o cabelo castanho preso num coque apertado, mas os olhos tinham a mesma determinação feroz que eu vi quando ela estava pronta para cortar um peito sem autorização para salvar uma vida.
Peguei meu celular pessoal.
Eu nunca misturava pessoal com profissional. Era a minha regra número um. Mas agora que a vaga de Chefe de Cirurgia estava aberta, eu precisava de alguém que não tivesse medo de trabalhar duro, nem de mim. E eu tinha um pressentimento de que a Dra. Hampton era exatamente quem procuro.
Olhei para o formulário de contato de emergência na ficha dela.
Endereço: 250 West 81st Street, Penthouse 4B.
Digitei o número dela no meu celular e salvei o contato apenas como "L.H.".
Se eu estava interessado nela, além da capacidade cirúrgica? Talvez.
Sorri para a foto dela antes de fechar a pasta.
Mas ela continuava sendo minha subordinada e esse interesse passaria em breve. O melhor é manter minhas regras intactas e manter nosso profissionalismo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!