MARKUS BLACKWOOD
Assim que a porta se fechou atrás de Leah, o silêncio na sala 402 mudou de textura. Deixou de ser um tribunal de inquisição e tornou-se um escritório desconfortável.
Eleanor Vance tirou os óculos e massageou a ponte do nariz. Abernathy parou de escrever.
— Bem... — Eleanor suspirou. — Isso foi inesperado. Normalmente eles negam até a morte e vocês dois admitiram sem pestanejar.
— Não temos nada do que nos envergonhar, Eleanor. — Falei pela primeira vez desde que meus olhos encontraram os de Leah. — A Dra. Hampton e eu, não temos medo da verdade.
Levantei-me da cadeira, abotoando o paletó.
— O fato está estabelecido. Eu e a Dra. Hampton estamos num relacionamento. É recente, é consensual e não viola a política de nepotismo.
— Markus. — Abernathy pigarreou. — Você sabe que isso é uma área cinzenta. Ela se reporta a você em última instância.
— Todos neste hospital se reportam a mim em última instância, Abernathy. Se eu namorasse a senhora do café, seria conflito de interesses porque eu aprovo o fornecedor de grãos.
Virei-me para encará-los.
— A Dra. Hampton tem a razão do seu lado e os números dela são impecáveis. A mortalidade no Trauma caiu 12% sob a gestão dela. As reclamações de pacientes diminuíram. Ela lidou com a crise do Paulo Torres de forma exemplar. Se vocês quiserem puni-la por namorar comigo, terão que explicar ao Conselho por que estão perseguindo a chefe de departamento mais eficiente que temos sem nenhum problema real para mostrar.
Eleanor franziu a lábios. Ela sabia que eu estava certo.
— Ninguém está falando em punição, Markus. Mas precisamos de transparência.
— Vocês têm transparência. — Apontei para a porta. — Ela acabou de dar a vocês.
— Vamos precisar formalizar isso. — Abernathy disse. — Um documento de divulgação de relacionamento. E talvez... mudar a linha de reporte dela para o Diretor Médico Geral, em vez de diretamente para o Executivo, para questões de bônus e avaliação salarial.
— Feito. — Concordei imediatamente. — Passem a avaliação financeira dela para o Dr. Stein. Eu mantenho apenas a supervisão operacional. Isso resolve o conflito?
— Resolve a parte legal. — Abernathy assentiu.
— E a parte da "ótica"? — Eleanor perguntou, preocupada com a imagem. — Os residentes estão agitados. O Sterling protocolou a denúncia com cópia para o sindicato.
Dei uma risada. Sterling. Aquele garoto arrogante que os médicos viviam reclamando.
— O Dr. Sterling está preocupado com a ética ou está preocupado porque a Dra. Hampton feriu o ego dele ao não deixá-lo operar? — Perguntei. — Deixem que eu lido com a "ótica".
— Eu sei. É um dos motivos pelos quais eu estou com ela.
Saí da sala.
Caminhei pelo corredor administrativo. A crise estava resolvida, mas a poeira ainda demoraria a baixar.
Sterling. Eu precisava ficar de olho nele. Um residente medíocre com complexo de Deus era perigoso. Mas acho que Leah saberia lidar com ele.
Peguei meu celular. Mandei uma mensagem rápida para ela.
"Você foi incrível lá dentro. Orgulhoso de você. Jantar hoje? Minha casa."
Leah: Foi mal, combinei de tomar uns drinks com uma amiga.
Suspirei ao ler a resposta. Guardei o telefone e entrei no elevador.
As portas se fecharam, refletindo meu rosto no metal.
Apertei o botão do térreo. Eu precisava de um café. E talvez... eu passasse pelo Trauma "por acaso" para ver a Chefe em ação. Afinal, agora era oficial. Eu não precisava mais esconder que era o maior fã dela.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!