LEAH HAMPTON
O despertador não tocou, mas meu relógio biológico, treinado por anos de rondas na madrugada e cirurgias de emergência, me puxou do sono às seis.
Por um breve momento, senti aquela desorientação clássica de quem acorda numa cama que não é a sua. O colchão era mais firme que o meu, o lençol tinha uma contagem de fios que beirava o obsceno de tão macia, e o cheiro... de homem.
Virei o rosto no travesseiro. Markus estava dormindo de bruços, um braço jogado possessivamente sobre a minha cintura, mantendo-me colada a ele. O rosto dele estava relaxado, quase juvenil. A luz cinzenta da manhã filtrava pelas cortinas, pintando sombras suaves nas costas largas e nuas dele.
Senti um sorriso bobo, curvar meus lábios. Eu estava totalmente na dele. E, pelo visto, ele também estava na minha.
Me movi devagar para não acordá-lo, mas o braço dele apertou minha cintura reflexivamente.
— Não ouse sair daqui. — A voz dele era um murmúrio rouco, vibrando contra o travesseiro.
— Eu tenho que trabalhar, Markus. — Sussurrei, passando a mão pelo cabelo dele. — E você também.
— Eu sou o dono. Posso chegar atrasado.
— Eu sou a Chefe de Cirurgia. Se eu chegar atrasada, darei mal exemplo.
Ele resmungou algo ininteligível, abriu um olho cinzento e me encarou.
— Bom dia, Dra. Hampton.
— Bom dia, Sr. Blackwood.
— Banho? — Ele sugeriu, um brilho malicioso surgindo no olhar sonolento.
— Só se for rápido. Sem... atividades extracurriculares.
— Você é uma megera má. — Ele riu, sentando-se na cama e esticando os braços, os músculos das costas se retesaram de uma forma que me fez reconsiderar minha condição de "sem atividades extras".
O banho foi mais demorado do que planejei.
O box do banheiro dele era enorme. Entramos juntos sob o jato quente. Não houve sexo, como prometido, mas houve muita intimidade, muita mesmo. Nos beijamos em cada oportunidade que tivermos. Markus lavou minhas costas com uma esponja macia e eu lavei o cabelo dele, massageando o couro cabeludo enquanto a espuma escorria por seus ombros largos.
Ficamos ali por alguns minutos, abraçados sob a água, pele contra pele, absorvendo o calor um do outro.
— Eu poderia me acostumar com isso. — Ele murmurou no meu ouvido, beijando meu ombro molhado.
— O hábito cria dependência, Blackwood.
— Eu já estou viciado, Leah. É tarde demais para reabilitação.
Saímos do banho, nos secamos e nos vestimos. Eu coloquei a roupa que tinha na mochila, era profissional o suficiente para entrar no hospital antes de colocar o pijama cirúrgico.
Quando descemos para a cozinha, o cheiro de café fresco e torradas estava por toda a sala. A Sra. Higgins já estava lá, movendo-se eficientemente entre o fogão e a mesa.
E Mark estava sentado na ilha da cozinha, balançando as pernas, com uma tigela de cereal colorido na frente dele.
— Leah! — Ele gritou, de boca cheia, quando me viu. — Bom dia! Você dormiu aqui mesmo?
— Bom dia, Mark. — Dei um beijo no topo da cabeça dele. — Eu disse que o sofá era confortável.
Ele me olhou com desconfiança.
— Mas o sofá da sala não está amassado.
Troquei um olhar rápido com Markus, que estava servindo café. Ele escondeu um sorriso atrás da xícara.
— Mágica de arrumação, Mark. — Markus interveio, me salvando. — Coma seu cereal.
— Você subestima o machismo estrutural. — Falei, séria. — Além disso antes não me preocupava que falassem por que minha consciência estava limpa e eu não estava dormindo com meu chefe.
— Mas você está dormindo com o chefe e aproveitando cada momento. — Ele disse, com um sorriso provocador, dando um passo na minha direção. Dei um tapa forte no braço dele. — Ai! — Ele massageou o bíceps, rindo. — Violência física de novo?
— É para você parar de ser presunçoso. — Tentei manter a cara séria, mas o sorriso dele era contagiante. Droga! — Isso é sério, Markus.
Markus suspirou, a expressão suavizando. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e os polegares acariciaram minhas bochechas.
— Eu sei que é sério. E eu respeito sua carreira mais do que tudo. — Ele me deu um selinho demorado. — Mas eu não vou deixar minha namorada pegar um carro qualquer quando eu posso levá-la.
— Markus...
— Vamos fazer assim... — Ele me interrompeu, roçando o nariz no meu. — Eu te deixo uma quadra antes. Você desce, compra seu café, caminha plena e independente, e ninguém vê o carro.
Mordi o lábio, ponderando. O cheiro dele estava me deixando tonta, e a perspectiva de mais vinte minutos com ele no carro era tentadora.
— Duas quadras. — Negociei.
— Uma quadra é suficiente. Ninguém enxerga através de prédios.
— Duas quadras, Markus. É pegar ou largar.
Ele bufou, mas sorriu.
— Você é a negociadora mais difícil que eu já enfrentei. Ok. Duas quadras. Mas se você chegar suada de tanto andar, a culpa é sua.
— É um ótimo exercício. E está frio lá fora, não vou suar.
— Vamos logo, Dra. Teimosa.

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