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Querido chefe, os gêmeos não são teus! romance Capítulo 3

MARKUS BLACKWOOD

— Vai, pai! Usa o raio! Usa o raio! — Mark gritava, pulando no sofá.

Eu segurava o controle do videogame e meus dedos, treinados para realizar suturas microscópicas em artérias coronárias, pareciam incapazes de fazer um encanador bigodudo fazer uma curva fechada sem cair num abismo de lava.

— Eu estou tentando, Mark. — Resmunguei, inclinando o corpo para a direita como se isso fosse ajudar o personagem na tela. — Mas esse macaco no carro conversível está trapaceando.

— É o Donkey Kong! — Mark riu, uma risada genuína e desinibida que encheu a sala. — Ele é forte, mas você é mais rápido se pegar a estrela!

Tentei pegar a tal estrela. Errei por milímetros e bati numa bananeira, girando na pista.

— Ah, não! — Mark cobriu os olhos com as mãos, dramatizando a minha derrota. — Último lugar de novo, pai!

Larguei o controle no sofá, fingindo exaustão.

— Eu desisto. Não nasci para ser piloto de corrida de karts mágicos.

Mark largou o controle dele que tinha chegado em primeiro, obviamente, e engatinhou pelo sofá até chegar perto de mim. Ele estava de pijama, o cabelo úmido do banho, cheirando a xampu de camomila.

— Você precisa treinar mais. — Ele disse, com a sabedoria solene de uma criança de quatro anos. — Eu posso te ensinar amanhã.

— Combinado. — Baguncei o cabelo dele. — Amanhã você me ensina seus truques.

Eu tinha dispensado a babá mais cedo, decidido a tentar essa coisa de "paternidade ativa". E, surpreendentemente, não tinha sido um desastre total. Pedimos pizza, ignoramos a hora de dormir e jogamos videogame.

Meu celular, que estava virado para baixo na mesa de centro, vibrou.

Peguei o telefone. O nome no visor fez meu maxilar travar.

Patrícia.

Respirei fundo, forçando um sorriso para Mark.

— É trabalho, campeão. — Menti. — O papai precisa atender. Fica aí escolhendo a próxima pista, volto em um minuto.

Mark assentiu, voltando sua atenção para a tela.

Levantei-me e caminhei até o meu escritório. Fechei a porta, garantindo que Mark não ouviria nada, e atendi.

— Patrícia. — Minha voz saiu fria, desprovida de qualquer cortesia. — Você tem noção de que horas são aqui?

— Oi para você também, Markus. — A voz dela estava animada, com um fundo de música lounge. — Aqui em Dubai já é manhã, querido. O fuso horário é uma loucura.

— Dubai? — Caminhei até a janela, olhando para as luzes de Manhattan. — Você foi para o outro lado do mundo?

— É sobre isso que eu queria falar. Eu não queria contar antes para não dar azar, sabe como é... mas o Rick e eu viemos para cá porque ele recebeu uma proposta de emprego irrecusável. Diretor de uma multinacional de petróleo.

Rolei os olhos.

— Parabéns para o Rick. — Falei, seco. — E quando vocês voltam?

Houve uma pausa do outro lado.

Do outro lado da linha, Patrícia ficou em silêncio, confusa.

— Ok? Só isso? — Ela perguntou, desconfiada. — Você não vai gritar? Não vai me dar sermão sobre moral e responsabilidade?

— O meu sermão faria você pegar o próximo voo para vir buscar o Mark agora?

— ...Não. — Ela admitiu. — Eu não posso voltar agora.

— Então não vou perder meu tempo, nem minha saliva. — Respondi. — Eu cuido dele. Vou assumir a responsabilidade que você está largando.

— Você fala como se eu fosse um monstro. — Ela choramingou. — Eu só quero ser feliz, Markus.

— Seja feliz, Patrícia. Mande o endereço para eu enviar os papéis da guarda legal provisória. Meus advogados entrarão em contato.

— Markus, espera, eu...

— Até mais.

Desliguei o telefone.

Fiquei parado no escritório escuro por um minuto, olhando para o aparelho na minha mão.

Eu tinha acabado de me tornar pai em tempo integral. Não por uma emergência. Mas, possivelmente, para sempre.

Estranhamente, isso não foi tão incômodo como no começo. Acho que pode dar certo, e mesmo que não dê, sei que serei capaz de me ajustar.

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