LEAH HAMPTON
As horas que se seguiram foi uma sinfonia de sirenes, flashes e gritos.
O Hospital Manhattan Grace foi transformado em uma cena de crime federal em questão de minutos.
Eu coordenei a varredura. Minha voz ecoou pelos alto-falantes, ordenando a suspensão imediata de todos os medicamentos do lote suspeito. Enfermeiros corriam pelos corredores com caixas de descarte, recolhendo frascos como se fossem granadas ativas.
A polícia chegou como uma avalanche. O FBI veio logo atrás.
Fomos todos levados para a delegacia do distrito para prestar depoimento. Eu, Markus, Brenda, Dr. Vance e todos que presenciaram o acontecido. Estávamos sentados na área de espera, cercados por policiais e advogados do hospital.
Eu estava entorpecida.
O choque tinha passado, deixando para trás um buraco frio e vazio no meu peito. Eu via o rosto de Jonas. O sorriso dele. A camiseta do Knicks.
— Dra. Hampton?
Levantei a cabeça. Um detetive estava me chamando. Todos já tinham prestado depoimento e saído, eu era a última.
Antes que eu pudesse responder o detetive, a porta da frente da delegacia se abriu.
O barulho aumentou. Repórteres que estavam acampados lá fora gritavam perguntas. Flashes estouravam através do vidro.
Dois policiais entraram, segurando um homem algemado entre eles.
Paulo Torres.
Ele não parecia o homem arrogante do vídeo. Ele estava despenteado, usava um casaco caro que parecia ridículo, e tinha uma expressão de desafio no rosto.
Quando ele passou pela recepção, nossos olhares se cruzaram.
Ele sorriu.
Um sorriso pequeno, de satisfação. Como se dissesse: Viu o que eu fiz? Viu como eu sou importante?
O juramento de Hipócrates diz "primeiro, não cause dano". Mas não diz nada sobre não causar dano a monstros que matam seus pacientes.
Levantei-me.
Não pensei, nem planejei. Apenas me movi.
Atravessei a recepção em três passadas largas. Os policiais que o escoltavam foram pegos de surpresa pela minha velocidade.
— Como vai vadiazi... — Paulo começou a dizer quando me viu aproximar.
Minha mão direita voou.
O estalo da minha palma contra o rosto dele ecoou por toda a delegacia, silenciando o burburinho instantaneamente. A cabeça dele virou para o lado com a força do impacto.
— Seu filho da puta! — Gritei, a voz rasgando minha garganta. — Eles iam para casa!
— Dra. Hampton, afaste-se! — Um policial gritou, tentando se colocar entre nós.
Mas eu era mais rápida e estava movida a ódio puro.
Aproveitei que as mãos dele estavam algemadas e que ele ainda estava atordoado pelo tapa. Levantei a perna direita e chutei. Com força. Bem entre as pernas dele.
— Aaaargh!
O grito de Paulo foi agudo. Ele dobrou os joelhos e caiu no chão, contorcendo-se, com o rosto roxo de dor.
— Eu vou te matar, maldito! Escroto do caralho! Vai pro inferno abraçar o capeta! — Sem dúvida eles seriam melhores amigos.
— Tira ela daqui! — O policial me empurrou para trás.
— Para onde? — Markus perguntou, olhando para mim. — Quer ir a uma cafeteria? Quer ir para casa? Eu te dou folga pelo resto do dia. Pelo resto da semana, se quiser.
Balancei a cabeça, olhando para as minhas mãos no colo.
— Não. Eu quero voltar para o hospital. — Falei, levantando os olhos para ele.
Markus franziu a testa.
— Leah, você não tem condições. Você precisa descansar.
— O meu plantão não acabou. — Insisti, teimosa. — As famílias... eles ainda estão lá. Eles estão esperando respostas. Eles merecem ouvir a verdade de mim, não de um comunicado de imprensa ou de um advogado.
— Você não precisa fazer isso. O departamento jurídico vai lidar com eles.
— Eles eram meus pacientes, Markus! — Minha voz subiu um tom. — A responsabilidade é minha. Eu disse que eles estavam seguros. Eu devo isso a eles.
Respirei fundo, secando a última lágrima.
— Meus sentimentos... minha raiva, frustração e tristeza... não vão me impedir de fazer meu trabalho.
— Tudo bem. — Ele assentiu. — Para o hospital. Eu vou dar a notícia com você.
— Você não precisa...
— Eu sou o Diretor. A responsabilidade final é minha.
Ficamos em silêncio o resto do caminho. Não era um silêncio confortável, mas era solidário.
Quando o carro parou na entrada de emergência, respirei fundo e abri a porta.
Havia trabalho a fazer. E o pior tipo de trabalho: dizer a uma mãe que o filho que ela esperava para o jantar nunca mais voltaria para casa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!