MARKUS BLACKWOOD
Saí do Hospital Manhattan Grace às 10:45 da manhã.
Isso era inédito. A última vez que deixei o trabalho antes do pôr do sol foi durante um alerta de bomba três anos atrás, e mesmo assim, levei prontuários comigo para ler na calçada.
Minha secretária, quase derrubou o café quando passei por ela sem o paletó, apenas com a chave do carro e o celular na mão.
— Sr. Blackwood? O senhor tem uma reunião com o jurídico ao meio-dia...
— Cancele. — Não parei de andar.
— Mas senhor, é sobre a aquisição da nova ala de radiologia...
— Cancele, Margareth. Diga que surgiu uma emergência pessoal inadiável.
Entrei no elevador, digitei o código do estacionamento e vi as portas de metal fecharem.
Entrei no meu Aston Martin cinza. O cheiro de novo e o silêncio geralmente me acalmavam. Hoje, pareciam sufocantes.
Enquanto dirigia pelas ruas de Manhattan, atravessando trânsito com uma agressividade que beirava a imprudência, minha mente tentava processar a ligação da Sra. Higgins.
Aquela maluca deixou um menino de quatro anos na minha porta como uma encomenda online.
Eu sabia da existência dele. Claro que sabia. Eu pagava uma pensão mensal que poderia sustentar uma família de dez pessoas confortavelmente. Eu recebia fotos esporádicas que meu advogado filtrava e arquivava. Mas eu nunca... eu nunca tinha estado na mesma sala que ele.
Era parte do acordo. O cheque caía, e a distância se mantinha.
Estacionei na garagem do meu prédio no Upper East Side. Subi direto para a cobertura.
Quando as portas do elevador se abriram para o hall de entrada do meu apartamento, o choque foi auditivo.
Meu apartamento era um lugar para dormir, tomar banho e beber uísque. Não era um lugar para... aquilo.
O som estridente de um desenho animado preenchia cada canto. Vozes agudas, música frenética, explosões coloridas vindo da televisão de 85 polegadas na sala de estar.
Caminhei pelo corredor. A Sra. Higgins, minha governanta há dez anos, estava parada no meio da sala. Ela segurava um espanador como se fosse uma arma, olhando para o sofá com uma expressão de terror absoluto.
No meu sofá de couro italiano branco, havia uma pequena figura.
Um menino.
Ele usava uma camiseta do Homem-Aranha, calça jeans e tênis que piscavam luzes vermelhas. Ele estava com os pés em cima do estofado...
— Sr. Blackwood... — A Sra. Higgins suspirou de alívio quando me viu. — Graças a Deus. Eu não sabia o que fazer. Ela... aquela mulher... ela simplesmente largou a mala e entrou no elevador. Ela disse que o senhor sabia.
— Está tudo bem, Higgins. — Minha voz saiu mais calma do que eu me sentia. — Você pode... pode ir para a cozinha por um minuto?
— Sim, senhor. Claro.
Assim que ela saiu, o menino no sofá se virou. Ele tinha o meu cabelo. Preto, liso e teimoso. E ele tinha os meus olhos. Aquele tom específico de cinza que eu via no espelho todas as manhãs.
Mark.
O sorriso dele vacilou um pouco, mas ele deu de ombros.
— A mamãe foi viajar. — Ele disse, apontando para a janela. — Ela disse que ia para muito longe, com o Tio Rick.
— Tio Rick. — Repeti. Devia ser o namorado da vez.
— É. Ela disse que precisava descansar a cabeça porque eu faço muito barulho. — Ele disse isso com uma naturalidade que me fez sentir pena. — E ela disse que agora eu vou morar com você no castelo e que você é rico e pode comprar todos os brinquedos.
Fechei os olhos por um segundo, contando até dez para não quebrar nada.
— Entendi. — Abri os olhos. — Mark, escuta. Você pode... voltar a assistir seu desenho por um minuto? O papai precisa fazer uma ligação importante.
— Tá bom! — Ele girou nos calcanhares e correu de volta para o sofá, pulando nele sem cerimônia.
Levantei-me e caminhei em direção ao meu escritório. A cada passo, a raiva dentro de mim crescia, transformando-se de uma brasa fria em um incêndio florestal.
Entrei no escritório e fechei a porta, girando a tranca. O isolamento acústico aqui era perfeito.
Peguei o celular. Disquei o número que eu não ligava há anos, mas que estava salvo na lista de bloqueio parcial.
Chamou uma vez. Duas. Três.
— Alô?
— Onde diabos você está?!

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!