ALEXANDER HAMPTON
Começamos a andar novamente. O terreno agora era uma descida suave, o que deveria ser um alívio, mas minhas coxas tremiam tanto que cada passo exigia concentração total para não cair de cara na poeira de lhama.
O caminho estreitou. De um lado, a montanha. Do outro, um precipício que dava para o rio. E no meio do caminho, bloqueando a passagem como um segurança de boate peludo e mal-humorado, estava uma lhama.
Não era uma lhama simpática de cartão postal. Era uma lhama com atitude. Ela mastigava capim com desdém, parada exatamente no meio da trilha.
— Com licença. — Falei para o animal.
A lhama parou de mastigar. Virou o pescoço longo e me olhou nos olhos. Havia um julgamento profundo naquele olhar negro.
— Alex, cuidado. — Lizzy sussurrou atrás de mim. — Elas cospem.
— Ótimo. — Respirei fundo. — Era só o que faltava. Ser humilhado por um camelídeo.
Tentei dar um passo para a esquerda, para contorná-la. A lhama moveu a cabeça para a esquerda, bloqueando. Tentei a direita. Ela moveu a cabeça para a direita.
— Ela está me marcando homem-a-homem? — perguntei, incrédulo.
— Acho que ela quer pedágio. — Lizzy segurou o riso.
— Eu não tenho dinheiro local, lhama. — Falei sério. — E se você está esperando um suborno em dólares, saiba que a cotação não está favorável.
A lhama bufou. Um som úmido e ameaçador.
— Ok, ok. — Recuei, levantando as mãos. — Você venceu. O caminho é seu.
Raul, o guia, veio lá de trás, estalou a língua e disse algo em Quechua. A lhama, magicamente, saiu da frente como se ele fosse a realeza, e voltou a comer seu mato, ignorando minha existência completamente.
— Vamos, amigos! — Raul passou por nós, rindo.
Olhei para Lizzy. Ela estava dobrada de rir, apoiada nos bastões de caminhada.
— Não tem graça. — tentei manter a dignidade.
— Tem sim. — Ela enxugou uma lágrima. — Você negociando com a lhama foi o ponto alto do meu dia. "Cotação não está favorável"... Alex, você é impagável.
— Vamos logo. — Resmunguei, passando por ela e dando uma olhada desconfiada para a lhama, que continuava mastigando com superioridade.
Continuamos a marcha. O sol começava a baixar, e com ele, a temperatura despencava. O calor sufocante do dia dava lugar a um frio cortante que penetrava nas camadas de roupa suada.
Eu estava exausto. Cada músculo do meu corpo doía. Eu me sentia sujo, faminto e meio tonto.
A exaustão física estava minando minha resistência mental. A ideia de andar mais três dias parecia impossível.
ELIZABETH WINTER
— Porque você é sádica?
— Não. — Sorri, limpando uma mancha de terra da bochecha dele. — Paris é linda, mas é fácil. Qualquer um pode se amar em Paris, bebendo champanhe. Mas aqui... Aqui somos nós contra a montanha.
Ele suspirou, o olhar suavizando.
— Lembra dos nossos votos? — perguntei. — No doce e no amargo. Isso aqui... — Apontei para a trilha íngreme. — Essa é a subida. Esse é o amargo. Mas eu estou aqui. Eu não vou te deixar para trás. Vou até te puxar se for preciso, ou vou sentar aqui com você até você recuperar o fôlego.
Alex olhou para mim. Vi a determinação voltar aos olhos dele, substituindo a exaustão. Ele apertou minha mão.
— Você não vai precisar me puxar. — Ele disse, a voz ganhando firmeza. — Eu só... precisava de um minuto. E de açúcar.
— Temos os dois. — Beijei a mão dele. — Agora, levanta essa bunda daí. Faltam vinte minutos para o acampamento. E o Raul disse que o jantar é sopa quente.
— Sopa quente soa melhor que caviar agora. — Ele se levantou, gemendo um pouco, mas ficando ereto.
Ajeitei a mochila dele, apertando as correias.
— Pronta, minha rocha? — ele perguntou, passando o braço pelos meus ombros.
— Sempre. Vamos lá, Hampton. Mostre para essa montanha quem manda.

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