ALEXANDER HAMPTON
O trajeto pelos telhados de Hanói não foi o passeio romântico que eu tinha em mente quando comecei essa viagem.
Lizzy estava logo atrás de mim, saltava entre beirais de concreto e desviava de antenas parabólicas enferrujadas com a determinação de uma gata de rua.
— Estamos perto. — sussurrei, verificando o mapa amassado na minha mão pela décima vez. — A linha pontilhada indica que devemos descer perto daquele templo vermelho.
Descemos por uma escada de incêndio lateral que parecia ter sido instalada antes da Guerra do Vietnã e que gemia a cada passo nosso. Aterrissamos em um beco estreito. O rio Vermelho estava logo à frente.
Caminhamos em direção à margem, onde a vegetação crescia alta e desordenada, escondendo a água da vista da rua.
— Ali. — Lizzy apertou minha mão, apontando para um ponto onde o junco se movia.
Havia um barco. Era um daqueles barcos de pesca tradicionais de madeira, longos e estreitos, com um motor de popa que parecia ter visto dias melhores. A luz de uma lanterna a óleo balançava na proa.
Assim que nossos pés tocaram a areia da margem, uma figura pequena saltou de dentro do barco.
Era o garoto.
Ele nos reconheceu imediatamente. Os olhos dele se arregalaram, brilhando na escuridão, e ele acenou freneticamente, indicando para nos apressarmos.
— Nhanh lên! (Rápido!) — ele falou, gesticulando. Embora não tenha entendido o que ele dizia, compreendi pelo gesto que era para nos apressarmos
Corremos os últimos metros, a lama sugando nossos tênis. O garoto estendeu a mão para ajudar Lizzy a subir à bordo. Eu subi logo atrás, meu ombro protestando com uma pontada aguda de dor que me fez trincar os dentes.
— Vocês vieram. — Uma voz grave e cansada falou da sombra da cobertura do barco.
Um homem se adiantou para a luz da lanterna.
Reconheci o rosto imediatamente. Era o rosto da foto antiga, envelhecido pelo tempo e pelas preocupações. O cabelo estava branco como neve, e havia rugas profundas ao redor dos olhos inteligentes, mas a postura era ereta e digna.
— Professor Minh? — perguntei, ainda ofegante.
Ele assentiu, olhando para nós com cautela.
— Vocês pegaram algo? — Ele perguntou em um inglês claro e educado, embora tingido de sotaque. — Ou apenas fugiram para cá?
Não respondi com palavras. Levei a mão ao zíper da minha jaqueta, abri-o e tirei a caixa de metal verde, os cadernos e a pasta de documentos que estavam pressionados contra meu peito.
Os olhos do velho professor se encheram de lágrimas. Ele estendeu as mãos e recebeu os objetos como se fossem sagrados.
— Vocês salvaram a história. — Ele sussurrou, acariciando a capa de um dos cadernos. — Vocês salvaram a verdade.
O motor do barco rugiu. O garoto, que parecia saber pilotar aquela coisa melhor do que eu sabia dirigir meu carro, já estava no comando, manobrando para longe da margem.
— Sentem-se, por favor. — O Professor Minh indicou os bancos. — Vamos sair daqui. Vou levá-los para um lugar seguro. A polícia já foi alertada, mas aqueles homens... eles têm braços longos. Precisamos desaparecer por algum tempo até que as prisões sejam feitas.
Lizzy apertou minha mão.
— Sério?
— Ele ficaria honrado. — O professor assentiu. — E eu ficaria honrado em apresentá-los. Seria a maneira correta de purificar a energia ruim desta noite. Uma união abençoada.
— E vocês serão recompensados. — O tom dele ficou sério novamente. — Não pensem que o que fizeram foi pequeno. Aqueles documentos provam anos de extorsão. Meu antigo aluno, que agora ocupa um cargo alto, estava esperando por essas provas para poder agir. Ele vai querer conhecê-los.
Balancei a cabeça rapidamente.
— Não é necessário, Professor. De verdade. Só queremos ficar seguros e seguir nossa viagem. Não precisamos de recompensa.
— Nós fizemos o que qualquer um faria. — Lizzy completou.
— Vocês fizeram o que poucos fariam. — Ele corrigiu. — A maioria teria jogado a chave fora ou nem tentado ajudar meu neto. Meu chefe... ele é um homem de princípios. Fará questão. E no Vietnã, recusar a gratidão de um homem poderoso é uma ofensa.
Trocamos um olhar. Parecia que não tínhamos escolha a não ser aceitar a gratidão.
— Tudo bem. Agradecemos novamente. — concordei.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!