ALEXANDER HAMPTON
O som da tranca da porta do nosso quarto foi o barulho mais aliviador que ouvi em toda a minha vida.
Encostei a testa na porta fechada por um segundo, sentindo a adrenalina começar a drenar do meu corpo, deixando para trás apenas uma exaustão pesada e o latejar irritante no meu ombro esquerdo.
Virei-me para Lizzy. Ela estava parada no meio do quarto pequeno, parecia um pouco pálida, o cabelo grudado na testa pelo suor da corrida e o vestido manchado de poeira e fuligem.
— Você está bem? — perguntei, desencostando da porta e indo até ela, minhas mãos buscando os braços dela para confirmar que ela estava inteira.
Lizzy balançou a cabeça, soltando uma risada curta e nervosa.
— Estou bem, amor. — Ela passou a mão pelo meu peito. — E você? Aquele homem te acertou?
— Só de raspão. — Minimizei. O ombro ardia como fogo, mas era o menos dos problemas.
Levei a mão ao bolso interno da minha jaqueta.
Sob a luz amarelada do quarto, o envelope parecia ainda mais misterioso. Era feito de seda vermelha, um pouco gasta nas bordas, bordada com fios dourados que formavam um padrão de flores de lótus entrelaçadas. Não parecia algo que uma criança de rua teria. Parecia algo que sairia de um cofre de um museu.
Lizzy se aproximou, sua curiosidade superando o medo.
— É lindo... — ela sussurrou, estendendo a mão para tocar o bordado. — O que será que tem aí dentro que vale a pena bater em uma criança?
— Vamos descobrir.
Caminhei até a cama, sentei na borda e coloquei o envelope sobre o lençol. Lizzy sentou-se ao meu lado. Deslizei o dedo pela abertura da cera, separando o tecido.
Virei o envelope de cabeça para baixo.
Três objetos caíram sobre a cama.
O primeiro foi uma chave. Era uma chave de ferro antiga, com a cabeça trabalhada em forma de um dragão enrolado. O metal estava frio e escurecido pelo tempo, mas os dentes pareciam polidos, como se fosse usada com frequência.
O segundo objeto era uma fotografia. Pequena, em preto e branco, com as bordas denteadas típicas de revelações antigas. A imagem estava amarelada, com marcas de dobras, como se tivesse sido carregada em uma carteira por décadas.
Peguei a foto. Lizzy se inclinou sobre meu ombro para ver.
A imagem mostrava um casal jovem, vestindo roupas tradicionais vietnamitas, mas com um corte ocidental, talvez dos anos 60 ou 70. Eles estavam de pé em frente a um prédio colonial com grandes janelas em arco. A mulher segurava um bebê no colo.
— Quem são eles? — Lizzy perguntou.
— Não faço ideia. — Virei a foto.
No verso, havia uma inscrição feita com caneta tinteiro azul, a tinta estava um pouco desbotada. Estava em vietnamita, mas abaixo, alguém tinha escrito uma data: 1972. E um nome: Nguyễn. Apenas o sobrenome, que era o mais comum do país, o que não ajudava muito.
Mas havia algo mais. Um número, rabiscado às pressas com uma caneta esferográfica preta, muito mais recente, quase destoando da elegância da tinta antiga: 304.
— 1972... — Lizzy murmurou. — Durante a guerra.
— É. — Coloquei a foto de volta na cama e peguei o terceiro objeto.
— Olha para o prédio da frente, Alex.
Levantei-me e fui até a janela. A nossa vista era bloqueada pela parede do prédio vizinho, mas se eu me esticasse e olhasse para baixo, para a rua...
A arquitetura do Bairro Antigo era confusa, mas o desenho do garoto destacava uma varanda com um gradeado de ferro em forma de flores.
Olhei para a rua. Havia dezenas de varandas. Mas a duas casas de distância, do outro lado da rua estreita, havia uma construção antiga, pintada de amarelo desbotado, com persianas verdes. E na varanda do terceiro andar...
O gradeado. Flores de ferro.
— É ali. — apontei. — Aquele prédio amarelo.
Lizzy olhou, comparando com o desenho.
— Terceiro andar... — Ela sussurrou. — Terceiro andar, quarto 4?
Recuei da janela, fechando a cortina rapidamente.
Voltamos para a cama.
O garoto tinha nos dado isso. Ele não esbarrou em mim por acaso. Ele viu um estrangeiro grande, que parecia capaz de brigar ou correr, e tomou uma decisão desesperada.
— Temos que descobrir o que essa chave abre.

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