ELIZABETH WINTER
A tarde caiu e o tour continuou. Bao nos levou para ver o Lago Hoan Kiem, com sua ponte vermelha icônica. A lenda da tartaruga gigante e da espada mágica parecia ganhar vida sob a névoa do crepúsculo.
— A história deste país é feita de resistência. — Bao disse, sua voz suave competindo com o barulho da cidade. — Nós somos como o bambu. Nós nos curvamos com o vento da tempestade, mas não quebramos. E quando a tempestade passa, nós nos erguemos novamente.
Quando o tour terminou, já era noite fechada. Bao nos deixou na entrada do Mercado Noturno de fim de semana, que tomava conta das ruas principais do bairro.
— Cuidado com os pertences. — Bao avisou com um sorriso paternal. — Hanói é segura, mas batedores de carteira são rápidos como ninjas. Aproveitem a comida. Experimentem o Bun Cha.
— Obrigado, Bao. Foi incrível. — Alex apertou a mão do guia com vigor.
Ficamos sozinhos na multidão. O mercado era um organismo vivo. Barracas intermináveis vendendo de tudo, desde camisetas falsificadas da Gucci até artesanato em madeira e espetinhos de carne não identificada.
— Bun Cha? — Alex sugeriu, os olhos varrendo as opções de comida.
— Bun Cha. — concordei.
Encontramos uma barraca e comemos a carne de porco grelhada com macarrão de arroz e ervas frescas. Estava divino.
— Sabe... — Alex disse, limpando a boca com um guardanapo de papel fino. — Eu estava pensando no que o Bao disse. Sobre as casas tubo.
— O quê?
— Ele disse que tem uma rede de túneis e passagens antigas por trás de algumas lojas. Atalhos que os moradores usam para evitar as ruas principais.
— E? — Arqueei uma sobrancelha, conhecendo aquele brilho no olhar dele. Era o brilho do "vamos fazer uma besteira" e geralmente esse olhar era meu.
— E eu vi no mapa que nosso hotel fica literalmente a dois quarteirões daqui se cortarmos por dentro, em vez de dar a volta na avenida principal.
— Alex... — avisei. — Nós não somos moradores. Nós somos turistas que não sabem distinguir "oi" de "sopa" em vietnamita.
— Ah, qual é, Lizzy! — Ele se levantou, estendendo a mão para mim. — Onde está a mulher que comeu escorpião? É só um atalho. Vamos ver a Hanói real.
A rua principal estava iluminada e segura. As vielas laterais eram escuras e estreitas. Mas a mão dele estava ali, convidativa, e o sorriso dele era o meu ponto fraco.
— Se formos sequestrados, eu vou te dizer "eu avisei" durante todo o cativeiro. — ameacei, pegando a mão dele.
— Combinado.
Entramos em uma das vielas laterais.
Imediatamente, o barulho do mercado abafou, substituído pelo som de televisões ligadas dentro das casas e o gotejar de canos. A iluminação era escassa, vinda apenas de algumas lâmpadas fluorescentes amareladas e das janelas abertas.
Caminhamos por entre o labirinto. Era fascinante, de fato.
— Viu? — Alex sussurrou, triunfante. — É incrível. Estamos vendo a vida como ela é.
— É... é bonito. — admiti, embora mantivesse minha bolsa bem junto ao corpo.
Viramos uma esquina, seguindo o senso de direção de Alex (que, para ser justa, geralmente era bom). A viela estreitou ainda mais.
Estávamos passando pelos fundos de um prédio que parecia um armazém antigo. Havia caixotes empilhados e um cheiro forte de produtos químicos.
De repente, ouvimos um grito.
Uma voz masculina, áspera, gritando em vietnamita. Seguido pelo som inconfundível de algo quebrando.
Parei, puxando o braço de Alex.
— Alex, vamos voltar. — sussurrei.
— Espera. — Ele parou também, mas não recuou. Estava olhando para a frente, para uma fresta entre dois prédios onde uma luz forte escapava de uma porta entreaberta.
— Alex, não. — Puxei com mais força. — Não é da nossa conta.
— Lizzy... tem uma criança ali.
— O quê?
Olhei na direção que ele olhava. Pela fresta da porta de metal enferrujada, pude ver um vislumbre. Havia três homens. Dois deles, grandes, de costas para nós. E um terceiro, menor, ajoelhado no chão. E ao lado dele... sim, uma criança. Um menino de talvez sete anos, encolhido contra a parede, segurando algo contra o peito.
Um dos homens grandes levantou a mão. Ele segurava um pedaço de pau.
— Alex, vamos chamar a polícia. — sussurrei freneticamente, pegando o celular.
— Não dá tempo.
Antes que eu pudesse segurá-lo, Alexander soltou minha mão.
— Fica aqui. — Ele ordenou, e então avançou.
— Alex! — Gritei sussurrando.
Ele caminhou até a porta aberta com passos barulhentos, fazendo questão de ser notado.
Virei o rosto para Alex. Ele estava suado, com uma mancha de graxa na bochecha e a camisa rasgada no ombro onde deve ter raspado na parede.
— Você... — sussurrei, ainda sem fôlego. — Você é louco.
— Eles iam machucar o garoto, Lizzy. Eu não podia...
— Eu sei, amor. — Interrompi, levando a mão ao rosto dele, limpando a graxa. — Eu sei.
Ele sorriu, um sorriso torto e aliviado.
— Aventura urbana, né?
— Nunca mais te deixo escolher o caminho. — falei, mas estava sorrindo também.
Alex se sentou, olhando ao redor do telhado.
— Acho que estamos seguros. Vamos esperar mais uns minutos e...
A expressão dele mudou de alívio para confusão e ele levou a mão ao bolso da calça.
— O que foi? — perguntei, alarmada. — Se machucou?
— Não... — Ele franziu a testa, enfiando a mão no bolso.
Ele puxou algo do bolso.
Sob a luz fraca da lua que tentava furar as nuvens, vimos que era um pequeno envelope de tecido vermelho, bordado com fios de ouro, selado com cera. Parecia antigo.
— O que é isso? — perguntei.
— Eu não sei. — Alex olhou para o envelope, virando-o nas mãos. — Aquele garoto... quando ele passou por mim correndo... ele esbarrou em mim. Deve ter colocado isso no meu bolso.
— Alex... — Senti um calafrio que não tinha nada a ver com o vento noturno. — Aqueles homens queriam isso? — Nós não tínhamos apenas impedido uma briga. — O que a gente faz? — sussurrei.
Alex olhou para o envelope vermelho, depois para a cidade escura ao nosso redor.
— Primeiro, a gente sai daqui. — Ele guardou o envelope no bolso interno da jaqueta. — Depois... a gente descobre o que tem aqui dentro que vale a pena perseguir uma criança por becos escuros.
Segurei a mão dele, seguindo-o.
— Acho que a parte turística acabou.

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