DAMIAN WINTER
Aquela manhã, que tinha começado tão absurdamente calma, desmoronou em segundos.
Nathan Ponlic foi encontrado morto esta manhã.
Por um instante, eu só fiquei parado, encarando o homem fardado à minha frente. Ele segurava uma pasta nas mãos e tinha o olhar de quem já estava acostumado com reações imprevisíveis.
— Como é que é? — minha voz saiu rouca, grave. — O que você acabou de dizer?
O policial consultou a prancheta como se precisasse confirmar a própria fala.
— O senhor ouviu corretamente, senhor Winter. O corpo foi encontrado em um terreno próximo à estrada do Norte, há cerca de três horas. Precisamos que o senhor nos acompanhe à delegacia para prestar depoimento.
Tudo o que tínhamos trocado foram palavras, ruins, mas apenas isso. Eu o tinha socado, sim. Mas matá-lo? Cristo, não fazia sentido.
Atrás de mim, ouvi o som de passos apressados e Stella apareceu na porta, o rosto empalidecendo assim que percebeu o uniforme policial.
— Damian? O que está acontecendo?
Virei-me e tentei manter a calma, mesmo que por dentro uma parte de mim já estivesse fervendo de preocupação.
— Está tudo bem, Stella. — toquei o braço dela. — Eles só querem que eu vá até lá esclarecer algumas coisas.
— Mas esclarecer o quê?
— Nathan foi encontrado morto e ao que parece sou um suspeito. — As palavras saíram amargas, e vi o pânico imediato tomar o rosto dela. — Eles precisam que eu preste depoimento.
Ela levou a mão à boca, respirando com dificuldade.
— Meu Deus…
O policial pigarreou discretamente, tentando manter a formalidade.
— Senhor Winter, precisamos sair agora.
Assenti.
— Tudo bem. — Olhei de novo para Stella e tentei parecer o mais tranquilo possível. — Vai ficar tudo bem, ouviu? Eu volto logo.
Ela segurou minha camisa e me puxou para um beijo rápido.
— Por favor… não diga nada sem um advogado.
Dei um pequeno sorriso de canto.
— Eu sei o que estou fazendo.
Saí com eles, tentando ignorar o nó na garganta e o olhar desesperado dela se apagando quando a porta se fechou atrás de mim.
O caminho até a delegacia pareceu mais longo do que realmente era. O carro da polícia estava silencioso, apenas o ruído do motor e, ocasionalmente, o som dos rádios de comunicação. Eu fixava o olhar na janela, tentando organizar a avalanche de pensamentos.
Nathan Ponlic morto.
A imprensa, os negócios, a acusação de fraude, o acidente de Stella, o sequestro de Damian, a morte de Sophie… tudo isso já tinha sido o suficiente. Agora isso.
Quando chegamos, o ar frio da sala de interrogatório me atingiu. O ambiente era cinza, com uma mesa metálica no centro e duas cadeiras. Um dos policiais me indicou onde sentar.
— Quer café, senhor Winter? — perguntou um deles, formal.
— Não. — respondi automaticamente.
Um outro homem entrou em seguida. Devia ser o delegado.
Ele se sentou diante de mim, cruzando as mãos sobre a mesa.
— Senhor Winter, obrigado por vir. Sei que deve estar surpreso com a notícia.
— Surpreso é pouco. — falei, sorrindo. — Quando foi isso?
— Por volta das quatro da manhã. — Ele consultou uma pasta. — Encontrado próximo ao seu apartamento.
— Próximo ao meu apartamento? — repeti, descrente. — O que diabos ele estava fazendo lá a essa hora?
— É isso que estamos tentando entender. — O delegado me estudava atentamente. — Então, precisamos de algumas informações. Onde o senhor estava entre duas e quatro da manhã?
Sorri quase incrédulo com a pergunta.
Demorei alguns segundos antes de responder.
— Incluindo eu. — admiti, por fim. — Mas querer ver alguém morto é diferente de matar alguém.
O delegado assentiu, encerrando as anotações.
— Certo. Vamos verificar as câmeras e confirmar seu depoimento. Enquanto isso, peço que não saia da cidade.
— Não tenho intenção de fugir de nada. — respondi, levantando-me.
Um dos policiais me acompanhou até a saída. O sol já estava alto quando pisei do lado de fora. Peguei o celular do bolso, vendo que havia três chamadas perdidas de Stella, uma de minha mãe e várias mensagens de imprensa.
Ignorei todas.
Dirigi em silêncio de volta pra casa, tentando assimilar o que acabara de acontecer. O rosto de Nathan não saía da minha cabeça. A última vez que o vi, ele estava com aquele sorriso cínico, confiante, cuspindo provocações. Agora estava morto.
Quando parei em frente à casa, vi Stella na varanda, sentada, o olhar aflito fixo na rua.
— Graças a Deus. — ela respirou, aliviada. — Eu achei que…
— Que eu fosse ser preso? — completei, com um meio sorriso cansado.
Ela não respondeu, apenas me abraçou com força. O cheiro dela, o calor, tudo em mim pareceu finalmente voltar ao lugar.
— O que eles disseram? — perguntou, afastando-se só o suficiente pra me encarar.
— Nada de novo. — suspirei. — Querem confirmar onde eu estava durante a madrugada. Já devem ter mandado buscar as gravações do condomínio.
— Você está bem?
— Estou. — Mentira. Eu estava exausto, confuso e com uma parte do cérebro ainda tentando entender aquilo. — Eles não têm nada, Stella. Nada que me ligue a isso.
— A imprensa já está enlouquecida. Sério, por que você tinha que ameaça uma pessoa de morte na frente de uma multidão?
— Eu não estava pensando e como poderia adivinhar?
Ela assentiu e voltamos pra dentro. Acho que vou precisar fazer minha própria investigação para cuidar disso, não confio na polícia.

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