Da mesma forma, ao perceber que o casal permanecia calado e que um clima bizarro e silencioso tomara conta do carro, Severino Macedo lançou mais um olhar pelo espelho retrovisor e, de repente, percebeu a gafe!
Suas palavras soaram ambíguas e poderiam facilmente gerar um mal-entendido.
— Viviane, por favor, não entenda errado. A tia não tem, de forma alguma, a menor intenção de pedir que você faça exames de compatibilidade ou doe um rim. Absolutamente não. — Severino Macedo se apressou em explicar, olhando nervosamente pelo retrovisor repetidas vezes.
Orlando Rocha franziu o cenho e alertou: — Mantenha os olhos na pista.
Severino Macedo passou a focar na direção, mas continuou com a explicação detalhada: — Na verdade, há alguns anos, a minha mãe chegou a fazer o teste de compatibilidade. Na época, os resultados permitiam a cirurgia, e a taxa de sucesso seria de uns cinquenta por cento. Mas a tia não aceitou; foi totalmente contra. Ela não queria arrastar uma pessoa saudável para um sofrimento por causa dela. Então pode ficar despreocupada, ela jamais pediria um rim seu. Ela foi atrás de você única e exclusivamente por querer reparar os erros do passado e reunir a família, sem nenhuma segunda intenção.
— Eu sei. Pode focar em dirigir, não estou criando paranoias na cabeça. — Vendo a aflição dele, Viviane Adrie finalmente quebrou o silêncio.
No fundo, analisando a fundo, ela já tinha uma boa noção do caráter de seus pais biológicos.
Se não fosse pelo hiato de mais de vinte anos que as separara, talvez a mãe tivesse aceitado o transplante da própria filha.
Afinal, para um indivíduo sadio, a perda de um rim, desde que acompanhada de cuidados adequados, não representava perigo de morte e sequer afetava a expectativa de vida de forma drástica.
E, sendo Poliana Veloso ainda tão jovem, em uma relação afetuosa entre mãe e filha, nenhuma filha seria cruel a ponto de virar as costas para a própria mãe.
No entanto, o relacionamento entre elas estava longe de ser um padrão.
Os seus pais biológicos haviam falhado em seus deveres de criação e já carregavam um fardo imenso de culpa e sofrimento por causa disso.
Como poderiam, após tanta luta para reencontrá-la, ter a audácia de cobrar-lhe um rim?
Se chegassem a um nível tão abjeto de canalhice, Viviane Adrie recusaria o pedido no mesmo instante e passaria a viver como se o reencontro nunca tivesse existido.
————
Ao chegarem ao hospital, o rosto de Poliana Veloso iluminou-se em um sorriso radiante ao avistar a filha.
Poliana Veloso guiou Viviane Adrie até o sofá e ambas se sentaram. Em seguida, ela lançou um olhar em direção ao leito hospitalar onde Malone Valentim jazia, paralisado e impotente: — O seu pai e eu refletimos bastante sobre o assunto. Nestes próximos anos, é certo que você não terá tempo para gerir a empresa. Contudo, o Grupo Valentim encontra-se acéfalo, e a equipe está apavorada; a situação não pode se estender por muito mais tempo. Nós pensamos em duas soluções: ou o Severino assume o controle da matriz, ou nós contratamos um CEO profissional. Qual é a sua opinião?
Viviane Adrie foi pega de surpresa.
Antes mesmo que pudesse levantar o tópico, Poliana Veloso já se antecipara com as próprias estratégias.
Severino Macedo caminhou até as duas, chacoalhando a cabeça sem parar: — Tia, administrar a filial já toma todo o meu tempo.
— A filial opera perfeitamente; uma verificação ocasional da sua parte seria suficiente, e os vice-presidentes têm capacidade para segurar as pontas. — argumentou Poliana Veloso. Apesar de nutrir um profundo desejo de que a filha se mudasse para a Cidade S e tomasse as rédeas dos negócios.
Mesmo se ela provasse ser uma péssima líder e o grupo afundasse em prejuízos financeiros, nada disso a abalaria, contanto que tivessem a filha por perto para conviver e recuperar o tempo roubado pelas ironias do destino.
Contudo, ela sabia que a filha não estava disposta a isso.

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