A expressão de Orlando Rocha foi tomada por um leve sobressalto.
Mas, logo em seguida, a compreensão o atingiu.
O simples fato de ela fazer aquela pergunta demonstrava que a raiva já havia ficado para trás.
Alguém capaz de fazer uma autoanálise assim, com certeza era sensata. Jamais prolongaria uma chateação até a noite ou se recusaria a falar com ele.
Tudo não passava de uma provocação intencional.
Ele abriu um sorriso sutil e se levantou. Com uma das mãos, puxou Viviane Adrie da cadeira, tomou o lugar dela e aproveitou o movimento para envolvê-la em seus braços, puxando-a para o seu colo.
— O que está fazendo? Eu já tomei banho, e você acabou de chegar da rua, nem sequer trocou de roupa.
Viviane Adrie reclamou demonstrando repulsa com as palavras, contudo, seu corpo não fez o menor esforço para se desvencilhar do abraço dele.
Orlando Rocha tinha uma leve mania de limpeza. Nos dias normais, sempre que chegava em casa, sua primeira atitude era tomar uma ducha e colocar roupas confortáveis.
Mas, naquela noite, ele não tivera tempo para isso.
Afinal, o único desejo que nutria era encontrar logo a sua esposa e reconquistar as suas boas graças.
Diante da reclamação dela, Orlando Rocha ergueu o próprio braço, cheirou-o de leve e franziu a testa.
— Tem razão. Hoje os termômetros bateram quase 30°C na Cidade S, eu estou cheirando a suor.
Após a autodepreciação proferida em tom de brincadeira, ele olhou para a esposa, com os olhos transbordando de carinho e devoção.
— Sendo assim, terei de incomodar a minha senhora para tomar um outro banho, desta vez junto comigo.
Viviane Adrie lançou-lhe um olhar de repreensão, sabendo muito bem as reais intenções ocultas naquela proposta.
— Voltando ao que você disse agora há pouco.
Orlando Rocha prosseguiu sem pressa, mantendo as mãos na cintura da esposa.
— Não há problema nenhum em ficar zangada. Na convivência humana, é inevitável que as opiniões divergem em alguns momentos. Todos têm o direito de expressar insatisfação, não faz sentido ceder indefinidamente para agradar o outro.
Viviane Adrie desviou o olhar para o marido; a sua fisionomia exibia uma evidente surpresa.
A maioria dos homens sempre taxava as mulheres de criaturas complicadas demais.
Daí a sua tamanha inclinação e predisposição a mimá-la e consolá-la.
Perante aquele rosto acolhedor e a fisionomia honesta, Viviane Adrie acabou abandonando, por fim, a postura fria e implacável.
Sem dúvida alguma, as pessoas eram absurdamente distintas.
Na época em que Kleber Mendes a contrariava, caso estivesse em dias bons, emitia no máximo um simples e superficial pedido de desculpas, dizendo que estava errado.
Por outro lado, caso acordasse num dia ruim, retrucava com impaciência, perguntando o que deu nela e reclamando que ela ficava irritada constantemente.
O que não destoava do que visualizara enquanto se desenvolvia, no modelo de relacionamento que O casal Adriel exibia. Uma boa parcela dos casos apontava inegavelmente que os tropeços provinham de André Adrie, mas o homem recusava-se a ceder, atacava de forma violenta, pontuando que a turbulência emocional nascia das atitudes de Bárbara Pires.
Recordando cenas do dia a dia, a maior parcela dos homens possuía este perfil intragável.
Profundamente machistas, não toleravam acatar o erro, mesmo nos cenários mais escancarados, tentando descarregar a culpa sobre as mulheres.
Orlando Rocha apenas reagiu como um homem normal deveria, mas, aos olhos de Viviane Adrie, ele era tão perfeito que parecia brilhar da cabeça aos pés.
Seus olhares se encontraram, irradiando profunda ternura.

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