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Quando Eu Fui Embora, Ele Enlouqueceu romance Capítulo 21

a manhã seguinte, Dante saiu de casa antes que o sol terminasse de nascer.

Helena fingiu dormir.

Sentiu quando ele se aproximou da cama, sentiu o cheiro limpo do sabonete caro, o calor breve da mão dele tocando seus cabelos, o peso de um beijo demorado em sua testa. Houve um tempo em que aquele gesto teria bastado para aquietar qualquer tristeza. Agora, parecia apenas a delicadeza de um homem que sabia mentir com ternura.

“Eu volto à noite”, ele murmurou.

Helena manteve os olhos fechados.

Dante ficou ali por mais alguns segundos. Talvez esperasse que ela acordasse. Talvez quisesse uma palavra, um gesto, alguma prova de que ainda podia alcançá-la. Mas Helena permaneceu imóvel, respirando devagar, como se o sono a protegesse da última mentira dele.

Quando a porta se fechou, ela abriu os olhos.

O quarto ficou silencioso.

Não era um silêncio comum.

Era o silêncio do fim.

Helena se sentou na cama, levou a mão ao ventre e respirou fundo. O corpo estava cansado, a alma parecia esmagada por tudo que havia segurado nos últimos dias, mas a decisão já não tremia dentro dela. Dante acreditava estar indo resolver uma pendência fora da cidade. Talvez com Rafael. Talvez com Bianca. Talvez com mais uma desculpa bem construída.

Pouco importava.

Enquanto ele saía para mais uma mentira, ela sairia para nunca mais voltar.

No closet, a mala pequena já estava pronta. Documentos, exames, passaporte, a caixa branca com o teste de gravidez e os sapatinhos, cópias do acordo de divórcio assinado, arquivos salvos, lembranças da mãe e do pai. Nada de joias dadas por Dante. Nada de vestidos comprados para eventos ao lado dele. Nada que cheirasse àquela vida fabricada.

Helena vestiu uma roupa simples, prendeu o cabelo e caminhou pela mansão como quem atravessa uma casa estranha.

Cada cômodo parecia guardar uma versão dela que já havia morrido antes do incêndio.

Na sala, o piano fechado. Na biblioteca, os livros organizados por cores, escolha de um decorador que Dante contratara sem consultá-la. Na parede do corredor, fotos do casal em viagens, festas e aniversários. Um museu de felicidade editada.

Helena parou diante da fotografia do casamento.

Ela sorriam.

Dante a olhava como se fosse incapaz de traí-la um dia.

A mentira tinha raízes antigas ou havia nascido depois? Helena já não sabia. Talvez nem quisesse saber. Algumas respostas não curavam, apenas davam detalhes ao ferimento.

No quarto, deixou sobre a cama uma caixa com cartas antigas, fotos rasgadas e objetos pequenos do casamento. Não deixou as provas ali. As provas teriam outro destino.

O velório.

A ideia havia surgido na noite anterior, fria e perfeita em sua crueldade. Dante precisava sofrer antes de entender. Precisava olhar para um caixão e acreditar que havia perdido a esposa para sempre. Precisava ser cercado por condolências, flores, silêncio e culpa. Só então receberia a verdade. Não em particular. Não com chance de controlar a narrativa. As provas chegariam diante de todos, quando ele estivesse vestindo o papel de viúvo devastado.

Helena havia preparado tudo com Marcelo.

Um envelope lacrado seria entregue durante o velório, em mãos, com cópias das fotos, registros, a conversa reconstruída em italiano, o nome de Bianca Salles, os pagamentos suspeitos e uma carta curta.

Dante descobriria que a esposa morta sabia de tudo.

E não teria como pedir perdão a uma mulher que, para o mundo, já estaria enterrada.

O detalhe mais terrível estava no quarto de hóspedes da ala antiga.

O corpo.

Helena não olhou diretamente quando passou por ali. Não queria transformar aquela parte do plano em imagem. Marcelo não havia participado disso. Ninguém poderia saber. Era algo que havia sido organizado por pessoas ligadas ao projeto que a retiraria do país por meios sigilosos, gente que conhecia desaparecimentos, identidades protegidas e verdades que jamais entravam em relatórios oficiais.

Disseram apenas que o corpo não seria identificado com facilidade.

Uma mulher sem nome, sem família reclamando por ela, vítima de um mundo que já a havia apagado antes. Helena não quis saber mais. Talvez fosse covardia. Talvez fosse sobrevivência. Talvez algumas escolhas carregassem um peso que ela só conseguiria enfrentar muito depois.

Mas sabia de uma coisa: aquela morte falsa era o preço para escapar de Dante, de Bianca, da família Salles, da imprensa, dos advogados, das tentativas de controle.

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