Helena passou por ele e subiu as escadas.
Não correu. Não bateu porta. Não chorou.
No quarto, abriu a gaveta onde ficavam as fotografias impressas do casamento. Escolheu algumas. A cerimônia. A lua de mel. Um aniversário na Itália. Uma foto deles na sala, recém-mudados para aquela casa. Colocou tudo sobre a cama.
Depois pegou uma tesoura.
Não cortou todas.
Apenas uma.
A do casamento.
A lâmina atravessou o papel separando o rosto dela do rosto dele.
O som foi baixo, quase delicado.
E devastador.
Helena ficou olhando as duas metades sobre a colcha branca. Não sentiu alívio. Não sentiu vitória. Sentiu luto. Um luto sem corpo, sem velório, sem gente ao redor oferecendo condolências. O casamento dela morria ali, em pedaços pequenos, enquanto o homem que o matou ainda respirava no andar de baixo fingindo que tudo podia ser explicado.
Ela guardou as metades dentro do envelope maior, junto com as provas.
Dante precisava ver.
Não para sofrer como ela sofreu.
Isso seria impossível.
Mas para entender que a mulher que ele chamava de confiável, controlada e segura havia sangrado em silêncio até aprender a cortar.
Mais tarde, durante o jantar, ele tentou se aproximar.
Serviu vinho para si, água para ela, tocou sua mão sobre a mesa.
“Helena, eu não quero que a gente continue assim.”
Ela olhou para a mão dele sobre a sua.
“Assim como?”
“Parecendo dois estranhos.”
Ela retirou a mão devagar.
“Estranhos não decepcionam tanto.”
Dante fechou o rosto.
“Você está me punindo por uma ligação.”
Helena quase perdeu o controle.
Uma ligação.
Ele ainda reduzia tudo a uma ligação.
Mas a raiva dela já tinha aprendido a se vestir de silêncio.
“Talvez”, respondeu.
Ele suspirou, exausto.
“Eu vou viajar amanhã por algumas horas. Preciso resolver uma pendência fora da cidade.”

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