A autópsia não era tão simples quanto desenhar linhas num papel, um corte errado...
Samuel Carneiro, com o rosto sombrio, não confiava muito na jovem "professora" e disse com frieza:
— Professora Noite, se sua mão não estiver bem, eu assumo a incisão.
Os mortos também merecem dignidade.
Rafaela Ribas o ignorou, observando seriamente o abdômen do cadáver, com uma expressão grave.
— Noite...
Sem formalidades, ele a chamou pelo nome.
— Silêncio. — A voz da garota esfriou completamente, carregada de uma forte autoridade, e seus olhos ocultavam um perigo latente. — Limite-se a cumprir sua função de faz-tudo.
Faz-tudo?
Ele, um renomado médico legista com doutorado, que se rebaixou para ser seu assistente, e no final, para ela, ele não passava de um faz-tudo?
O rosto de Samuel Carneiro escureceu subitamente, e ele encarou Rafaela Ribas com um olhar gélido.
Ele queria ver do que aquela Professora Noite era realmente capaz.
Samuel Carneiro baixou o olhar e viu que Rafaela Ribas já havia feito a incisão, usando uma "incisão em forma de T curvado". A linha de corte ia do acrômio esquerdo, passando pelo esterno, até o acrômio direito e, finalmente, a partir do ponto médio, descia em uma incisão longitudinal reta até o umbigo.
O corte foi preciso, a técnica era experiente.
Observando o cadáver, a dissecação foi perfeitamente uniforme, sem danificar nenhum órgão interno.
Esse método de autópsia era extremamente difícil, e a sutura também seria um desafio.
Mas havia uma vantagem: o pescoço não fora tocado, evitando deixar uma cicatriz visível nela.
Observando a velocidade com que a mão esquerda de Rafaela Ribas se movia, Samuel Carneiro ficou um tanto chocado. Seu olhar pousou lentamente sobre ela, e a desconfiança em seus olhos foi desaparecendo gradualmente.
Ela realmente tinha talento.
Até ele não ousaria tentar aquele método levianamente.
— Recipiente. — A garota ignorou o olhar perscrutador de Samuel Carneiro, sua voz firme. — Você pega o lado esquerdo, eu pego o direito.
— Certo.
Samuel Carneiro, raramente submisso de verdade, pegou a pinça e a inseriu no estômago do cadáver.
Samuel Carneiro hesitou por um instante, percebendo que havia julgado mal a posição.
Ao mesmo tempo, deu-se conta de que havia se distraído.
Distraído por ela.
— Dois milímetros. — Rafaela Ribas apontou para a posição do bisturi, sua voz tingida de impaciência. — Para a esquerda. E não trema.
Naquele momento, Samuel Carneiro parecia um estagiário recém-formado, pálido de tanto ser repreendido.
Na sala de observação, todos trocaram olhares e suspiraram de alívio.
Foi por pouco. Ainda bem que não estavam realmente ao lado da Professora Noite.
Se até o Doutor Carneiro estava sendo tratado com tanto desdém, eles...
Provavelmente fariam a Professora Noite perder a paciência e esfaqueá-los.
A autópsia era um trabalho minucioso. Samuel Carneiro e Rafaela Ribas cooperaram por seis horas inteiras até que todo o conteúdo do estômago do cadáver fosse removido.
Pílulas de várias cores, do tamanho de um polegar, envoltas em sacos plásticos, enchiam o recipiente por completo.

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