Na sala de interrogatório, reinava o silêncio.
A policial responsável pela ata era uma jovem recém-formada.
Após ouvir as palavras de Valentina Lacerda, ela franziu a testa involuntariamente, levantando os olhos para encarar a mulher à sua frente.
Lembrou-se do que acabara de registrar no notebook:
“Ele está em Paris, com a filha, reunido com a família de Helena Barbosa...”
Ela não ousava imaginar o quanto aquela mulher deveria ter sofrido naquele momento.
Sobre a mesa à sua frente, repousava o currículo de Valentina Lacerda.
“Pós-graduada pela Universidade C, doutoranda do professor Bento Godoy, participação em projetos nacionais, leiloeira de destaque...”
Entre todas essas conquistas, a beleza era talvez o atributo menos relevante.
Ainda assim, mesmo uma mulher aparentemente perfeita sofria tamanha humilhação no casamento...
E agora, por causa de questões envolvendo o marido e a ex-esposa, precisava comparecer à delegacia para colaborar com a investigação.
A jovem policial sentiu-se tocada. Levantou-se e serviu um copo d’água para Valentina Lacerda, depositando-o sobre a mesa.
— Srta. Lacerda, tome um pouco de água quente.
Valentina Lacerda aceitou o copo.
— Obrigada.
Do outro lado, Benjamin Freitas mal conseguia permanecer ali.
Nádia Assunção lhe sugerira que fingisse estar vulnerável, para tentar amolecer o coração de Valentina Lacerda.
Mas ela não fazia ideia de que o que ele havia feito com Valentina Lacerda não era algo que pudesse ser ignorado apenas com um ar de coitado.
Ele observava a mulher sentada do outro lado do vidro.
Ao falar sobre a criança que haviam perdido, ela não derramara lágrimas, apenas os olhos se avermelharam levemente.
Na sua lembrança, ela raramente chorava diante dele, mas ele, de fato, a ferira inúmeras vezes.
Aquelas lágrimas, talvez, tivessem sido engolidas e guardadas no mais íntimo do seu coração.
Ao lado de Benjamin Freitas estavam outros policiais.
Eles conheciam bem o status de Benjamin Freitas; mantê-lo detido por 48 horas era apenas uma formalidade.


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