Uma ponta de revolta e tristeza passou pelo rosto de Melissa Valente. Ela fala tudo aquilo e ele ainda responde assim?
Encostou-se nele calada, mas que bom que ele não foi embora.
...
Quando Beatriz Vaz acordou, o céu lá fora já estava totalmente escuro.
No quarto do hospital havia apenas um abajur aceso. A luz amarela formava um brilho nas paredes brancas.
Um cheiro de desinfetante pairava no ar.
Ela mexeu os dedos e viu que a mão direita estava agarrada. Uma mão grande e quente, com dedos compridos e uns calos na pele.
Inclinou a cabeça devagar e viu Maurício Drumond na cadeira ao lado. Uma mão segurava a dela e a outra sustentava a testa, com os olhos fechados.
A luz caía sobre seu rosto. Os olhos sempre astutos estavam fechados agora.
Beatriz Vaz se comoveu, sentou-se devagar, e olhou para ele em silêncio sem acordá-lo.
De repente, ela lembrou da hora em que estava prestes a entrar em colapso na escuridão. Da voz que ela ouviu e então da porta sendo arrombada.
A luz do corredor entrou, e ele estava lá no clarão. A contraluz impedia de ver sua expressão, mas ela reconheceu seus traços.
Naquele instante de tontura, um único pensamento tomou conta dela: Maurício Drumond chegou, e sua consciência afrouxou.
Ela não sabia por quê. A presença dele a fazia sentir muito segura.
Como se sentisse algo, Maurício Drumond mexeu os cílios e foi abrindo os olhos.
Viu Beatriz Vaz de cabeça virada olhando para ele com calma. Surpreso, percebeu que ainda segurava a mão dela. As orelhas dele ficaram vermelhas.
Afrouxou a mão devagar, falando meio rouco: — Acordou. Como se sente?
Beatriz Vaz retirou a mão de cima da coberta, as pontas dos dedos ainda mantendo o calor da mão dele.
— Tudo bem. Obrigada.
Fez uma pausa e perguntou. — O que você foi fazer no escritório?
Maurício Drumond encostou-se, apoiou as mãos nos joelhos e ficou quieto.
— Fui discutir um assunto e passei por ali.
Beatriz Vaz assentiu: — Obrigada por me achar e me salvar.
Maurício Drumond olhou para ela, com um tom grave e olhar firme: — Falando isso de novo. Acha que eu a deixaria sozinha ali?
No início do casamento, Thiago Monteiro também ficava nervoso por ela. Agora tudo sumiu, ela até tinha medo de aceitar.
O entregador chegou e Maurício Drumond pegou a comida. Abriu e botou sobre o móvel, tirou a colher do plástico, jogou água fervendo nela e passou para a mulher.
Ao pegar a colher, os dedos encostaram na mão dele. Os dois congelaram e mudaram de foco, agindo como se não fosse nada, com uma tossida de leve.
Beatriz Vaz foi tomando o mingau. O salgado da verdura com carne magra derretia na língua e o líquido descia. Aos poucos expulsava aquele vazio e frio do estômago.
Maurício Drumond assistia a tudo sem perceber a própria atenção e paciência com que a fitava.
Ao acabar o mingau, ele limpou a mesa, jogou as coisas fora, lavou as mãos e pegou o paletó na cadeira.
— Descanse hoje, amanhã alguém te busca. Não se preocupe com a empresa, vou continuar lidando com o problema da Melissa Valente.
Perto da porta ele deu um tempo, olhou para trás. A luz formava a silhueta da figura.
— Beatriz. — disse ele num tom grosso. — Quando acontecer alguma coisa, me ligue primeiro. Sou seu chefe e tenho o direito de cuidar de você.
Depois abriu a porta e foi embora. O barulho dos sapatos no chão do corredor foi sumindo.
Beatriz Vaz afundou, apenas seu chefe?

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