O som que reinava na sala de espera privativa no andar de UTI do Hospital não era o silêncio. Era algo pior: um zumbido branco e antisséptico, interrompido pelo sibilar distante de máquinas, pelo clique metálico dos passos de uma enfermeira no corredor e pelo eco assustador do próprio batimento cardíaco de Olívia.
Ela estava sentada em uma poltrona de couro frio, os braços envoltos em volta do próprio corpo, como se se segurando para não despedaçar. As mãos ainda tinham resquícios secos e acastanhados do sangue de Ian. O tailleur cinza estava manchado e amarrotado. Ela não se importava. O mundo tinha reduzido a um único ponto: a porta dupla de metal e vidro fosco que levava ao centro cirúrgico.
— Trauma balístico penetrante no ombro esquerdo. A bala fraturou a clavícula, perfurou o pulmão e parou a poucos milímetros da artéria subclávia. Perda sanguínea massiva. O risco é iminente.
As palavras do cirurgião-chefe, ditas com uma frieza profissional que doía mais que um grito, giravam em sua cabeça em um loop infernal. Pulmão perfurado. Risco iminente.
Ela estava sozinha. Terrivelmente, completamente sozinha. A vastidão da sala de espera, com suas revistas imaculadas e sua decoração insípida, apenas amplificava o vazio dentro dela. Todos os seguranças estavam nos corredores, na recepção, contendo a imprensa que já se amontoava do lado de fora do hospital. Matheus estava em algum lugar, lidando com a polícia, com o caos pós-atentado, com Alexander — agora preso, mas cujo tiro ainda ecoava dentro dela.
Ela não tinha ninguém para segurar sua mão. Ninguém para dizer que tudo ficaria bem. Helena, aquela que sempre a levantara em momentos como este, estava presa, revelando-se alguém terrivelmente cruel. Alberta, que agora Olívia sabia ser sua tia, sob custódia psiquiátrica. E quanto a sua mãe, a falsa, a de criação... Para nenhuma surpresa de Olívia, sequer buscou contatá-la depois de tantas perversas revelações.
Olívia respirou fundo, o seu mundo, que havia se recomposto tão frágil e corajosamente na noite anterior, desmoronara novamente, e desta vez a queda era no escuro absoluto.
Os minutos se arrastavam como séculos. Cada vez que a porta do corredor se abria, seu coração dava um salto agonizante, esperando ver um médico com notícias. Era apenas um funcionário da limpeza, um residente apressado. A espera era uma tortura de agulhas finas.
O que se passava do outro lado daquela porta? Ian, forte, invencível Ian, estava deitado em uma mesa fria, seu corpo aberto, violado por metal e por ódio alheio. Lutando. E ela não podia fazer nada. Nada além sentar ali, congelada em um pânico paralisante, revivendo o momento em que ele desabou, o som do corpo dele batendo no chão, a sensação do sangue dele, quente e viscoso, em sua mão.
E Léo. Meu Deus, Léo. Onde ele estava agora? Com quem? O que ele tinha visto? Ela havia gritado para o segurança segurá-lo, mas depois… depois ela correu para Ian. Abandonou o filho no caos? O pensamento a estrangulou. Ela se curvou para a frente, enterrou o rosto nas mãos, mas não chorou. As lágrimas tinham secado, substituídas por um desespero árido e ardente que queimava por dentro.
Foi então que a porta da sala de espera se abriu novamente.
Olívia nem ergueu a cabeça. Até ouvir a voz.
— Olívia.
Era uma voz feminina, suave, carregada de uma preocupação que não era profissional. Olívia levantou os olhos, vermelhos e esgotados.
Na porta, estava Carla. Seu rosto, normalmente tão composto e analítico, estava pálido, marcado por profunda preocupação. E ao seu lado, segurando a mão de Matheus com uma força desesperada, estava Léo.
O menino parecia pequeno e perdido em suas roupas sociais. Seus olhos estavam inchados de chorar, sua expressão, um retrato vivo do trauma. Mas quando ele viu a mãe, algo se quebrou nele.
— Mamãe!
— O… o papai vai… vai morrer, mamãe? — Sua voz era um fiozinho de terror.
Olívia segurou seu rosto com as mãos, forçando-se a manter a voz firme, a não transmitir o pavor que a consumia.
— Não, meu amor. O papai é muito forte. Os médicos também são muito bons. Ele está lutando. Ele vai… ele vai ficar bem. — Ela disse as palavras, mas soaram ocas até para seus próprios ouvidos.
Carla sentou-se na poltrona ao lado, mantendo uma distância respeitosa, mas presente.
— Ele é um lutador, Olívia. E ele tem um motivo gigante para voltar. — Seu olhar passou de Olívia para Léo.
Matheus permaneceu de pé, uma sentinela de carne e osso diante da porta, seu olhar fixo no corredor, vigilante. A presença deles, sólida e silenciosa, começou, muito lentamente, a preencher um pouco do vazio abissal em que Olívia estava. Ela não estava mais completamente só.
Mas a batalha real ainda acontecia do outro lado da parede. Cada segundo era uma eternidade. Olívia segurava seu filho, seu pequeno mundo despedaçado, e fixava os olhos na porta do centro cirúrgico, rezando, implorando, negociando com qualquer força do universo que pudesse ouvi-la.
A luta de Ian não era mais só dele. Era deles. E naquela sala de espera gelada, enquanto a noite caía lá fora, Olívia, pela primeira vez, permitiu-se segurar na pequena mão que Léo estendia para ela, e esperar. Não mais paralisada, mas com um fio tênue e teimoso de espera, alimentado pelo calor do filho em seu colo e pela presença silenciosa de aliados improváveis no fim do mundo. A espera continuava, mas agora, ela não a enfrentava sozinha.

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