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Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido romance Capítulo 271

O salão de eventos do hotel mais caro da cidade estava irreconhecível. Os lustres de cristal, que costumavam iluminar festas de gala, agora jogavam uma luz crua e impiedosa sobre um palco austero, uma única mesa e um microfone. O burburinho era um ser vivo, um zumbido de vozes tensas, sussurros eletrizados e o ruído incessante de câmeras fotográficas. A imprensa mundial estava lá. Era o dia do acerto de contas da dinastia Moretti.

Nos bastidores, o ar estava gelado. Ian ajustava o nó de sua gravata preta em frente a um espelho. Suas feições eram de mármore polido, mas os olhos, refletidos no vidro, eram os de um homem prestes a saltar de um precipício. A atadura sob a manga da camisa branca imaculada formava um relevo discreto.

Matheus estava ao seu lado, falando baixo no microfone de sua orelha.

— Todas as saídas estão cobertas. As autoridades estão no controle da periferia. Os arquivos estão digitalizados e prontos para serem projetados. São dois dossiês: um para a polícia, outro para a imprensa. Não há volta, Ian.

— Bom — respirou Ian, sem emoção. — A volta nunca foi uma opção.

Sua busca no espelho encontrou Olívia. Ela estava a alguns metros, ajoelhada na altura de Léo, ajustando o colarinho de sua camisa social. O menino estava pálido, sério, mas mantinha o queixo erguido. Olívia sussurrou algo em seu ouvido, e ele assentiu, um movimento pequeno e corajoso. Ela então o abraçou, um gesto rápido e forte, e o entregou a Matheus, que o levaria para um lugar seguro no meio da multidão, rodeado por seus homens mais confiáveis.

Olívia se aproximou de Ian. Vestia um tailleur cinza escuro, uma armadura de lã e cetim. Não tocou nele, mas sua presença era um campo de força.

— Estamos aqui — ela disse, simplesmente.

— Você não precisa estar no meio daquele circo — ele murmurou, pela centésima vez.

— Onde mais eu estaria? — Ela respondeu, com um sorriso triste. — É a nossa verdade também. Vamos acabar com isso.

Um assessor fez um sinal. Era a hora.

O burburinho aumentou para um clamor quando Ian emergiu sozinho no palco. As luzes das câmeras o atingiram como holofotes de um interrogatório. Ele não sorriu. Foi direto ao microfone.

— Obrigado por virem — começou, sua voz amplificada, clara e fria como vidro quebrado. — Não vim aqui hoje para defender um legado. Vim para desmontar um mito podre e enterrá-lo, de uma vez por todas.

E então, ele começou a falar.

Falou de Nicolau Moretti, seu avô. Não o magnata filantropo, mas o criminoso que sonegava, subornava, extorquia e ordenava desaparecimentos. Nomes, datas, valores. A projeção atrás dele começou a exibir páginas escaneadas do diário íntimo, com a caligrafia firme do patriarca descrevendo atrocidades como se fossem transações comerciais.

A sala, que antes fervilhava, ficou em silêncio mortal. Só se ouviam os cliques das câmeras e o respirar ofegante de repórteres anotando freneticamente.

Ian prosseguiu. Falou de seu pai, o "bastardo" que Alberta, a empregada silenciosa, deu à luz depois de uma violência. Falou da ordem de Nicolau para que a criança "desaparecesse", então, lançou a bomba.

— Essa ordem foi dada a uma jovem mulher chamada Lenora Belmonte, mais conhecida como Helena. Em vez de cumpri-la, ela desobedeceu. Ela salvou a criança. E, movida por uma vingança que consumiu sua vida, ela se infiltrou na nossa família. Tornou-se a enfermeira, a sombra, a Sentinela. Foi ela quem orquestrou a descoberta dos segredos, quem manipulou os eventos que nos trouxeram aqui hoje. Ela não é uma heroína. Sua motivação foi o ódio, não a justiça. Mas seu testemunho e suas provas são a chave que destrancou este cofre de horrores.

O burburinho voltou, agora como ondas de choque de sussurros incrédulos. Perguntas começaram a gritar da plateia, mas Ian ergueu a mão.

— E o homem que conheciam como Alexander — Ian fez uma pausa, seu olhar varrendo a plateia, como se procurasse alguém. — É o filho de Alberta. É o irmão por parte de pai que eu nunca conheci. Ele voltou, não para fazer justiça, mas para reivindicar à força uma fortuna que acredita ser sua por direito de sangue manchado. Ele sequestrou, ameaçou e tentou assassinar para isso.

Ele jogou a última pá de cal.

— As envolvidas Helena e Alberta estão sob custódia das autoridades. Alexander, no entanto, está desaparecido. Mas todas as evidências foram entregues. A partir de hoje, as indústrias Moretti deixam de existir. Seus ativos serão auditados e liquidados. Um fundo será criado para indenizar as vítimas. Esta é a única herança que este nome carregará daqui para frente.

O silêncio que se seguiu foi absoluto por um segundo. E então, explodiu.

Repórteres se levantaram, gritando perguntas, vozes se sobrepondo em um cacofonia ensurdecedora.

— Ian, você vai ser processado?

Mas Olívia já não via mais Alexander.

— SEGURA O LÉO! NÃO SOLTA ELE! — Ela berrou para o segurança enorme que estava ao seu lado, sua voz um comando gutural que brotou de um lugar primitivo. Ela não perguntou. Ordenou. E, antes que qualquer um pudesse reagir, ela se virou e arrancou em direção ao palco.

Os seguranças ao seu redor, pegos de surpresa, tentaram formular um bloqueio, mas ela era como água, deslizando entre eles, seus saltos altos abandonados no caminho.

— IAN!

Ela correu como se o próprio inferno estivesse a seus calcanhares. Empurrou um repórter, escorregou no chão de mármore, se reergueu. O mundo ao seu redor era um borrão de corpos em pânico e sons abafados. Seu único ponto focal era aquele amontoado de terno preto no centro do palco.

Ao alcançá-lo, ela caiu de joelhos ao seu lado, o impacto doendo seus ossos. Ian estava de costas, os olhos abertos, ofegante. O sangue, um vermelho vivo e horrível, já havia encharcado o ombro esquerdo de seu terno e começava a formar uma poça escura e brilhante no chão claro do palco.

— Ian! Ian, me escuta! — Suas mãos, agora livres, pairaram sobre ele, tremendo. Ela não sabia onde tocar. O sangue era tanto. — Não, não, não… por favor…

Os seguranças de Ian finalmente formaram um cordão de ferro ao redor deles, de costas para o casal, armas em riste, faces fechadas contra a multidão ainda em tumulto. Médicos do pronto-socorro, que estavam de plantão por precaução, corriam em sua direção.

Ian tentou focar nela. A dor era uma serra elétrica em seu torso, mas o pânico no rosto dela era pior. Ele tentou falar, mas só saiu um suspiro rouco. Com um esforço sobre-humano, sua mão direita, limpa, se moveu alguns centímetros no chão, em direção a ela.

Olívia agarrou-a, entrelaçando seus dedos ensanguentados com os dele, apertando com uma força desesperada.

— Fica comigo — ela suplicou, as lágrimas agora rompendo o dique, misturando-se ao pó de mármore e à promessa de um futuro que desmoronava a cada batida fraca do coração dele. — Você me ouviu? Você não vai me deixar. Não agora. Não DEPOIS DE TUDO.

Fora do círculo de segurança, o caos ainda reinava. Mas dentro daquele pequeno perímetro de horror, havia apenas o som da respiração ofegante de Ian, o sussurro desesperado de Olívia, e o silêncio ensurdecedor de uma verdade que, afinal, ainda não estava pronta para ser enterrada. A sombra dos Moretti, parece, ainda tinha uma última bala para disparar.

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