CHARLES KINGSTON
Aquele era, sem a menor sombra de dúvidas, o jantar mais tenso, agonizante e torturante de toda a minha vida. Eu preferiria estar no meio de uma negociação com acionistas furiosos do que sentado naquela mesa.
Quando Isabel saiu do quarto, usando um vestido leve e florido, com os cabelos úmidos do banho e o rosto limpo de maquiagem, o meu avô já estava acomodado na cadeira principal. Eu havia colocado a travessa de lasanha no centro da mesa.
— Desculpe a demora, senhor Kingston — Isabel sorriu docemente, sentando-se ao meu lado. — O plantão de hoje foi cansativo, mas é uma honra finalmente conhecer alguém da família do Charles. Ele fala tão pouco de si mesmo.
— Oh, eu imagino que ele fale pouco mesmo. O meu neto sempre foi um homem cheio de... segredos.
Por baixo da mesa pequena, estiquei a minha perna direita e acertei um chute certeiro na canela do meu avô.
O velho deu um pulo na cadeira, arregalando os olhos para mim. Eu devolvi um sorriso cínico, cerrando os dentes. "Não ouse", o meu olhar dizia.
— O senhor está bem? — Isabel perguntou, preocupada, pegando a espátula para servir a comida.
— S-sim. Foi apenas um espasmo muscular — ele pigarreou, arrumando a postura. — A idade chega para todos nós.
Isabel serviu um pedaço generoso de lasanha no prato dele, depois no meu, e por fim no dela. O meu avô pegou o garfo e levou um pedaço à boca.
Ele mastigou devagar, engoliu e olhou para mim.
— Delicioso, Charles. Realmente... com gosto de comida cara — ele provocou, com um sorriso de lado.
— Fico feliz que tenha gostado, vovô — rosnei baixinho.
— O Charles é maravilhoso na cozinha — Isabel elogiou, completamente alheia à guerra fria que acontecia a trinta centímetros dela. — Mas me conte, senhor Kingston. O senhor mora aqui em Nova York?
E assim começou o interrogatório. O meu avô, acostumado a lidar com golpistas, interesseiras e caçadores de fortunas que rodeavam a nossa família, começou a fazer perguntas sutis para Isabel. Ele queria encontrar a falha. Queria encontrar a mulher vulgar e manipuladora que ele tinha certeza de que havia me enfeitiçado para roubar os meus milhões.
Mas, a cada resposta de Isabel, eu via sua convicção rachar um pouco mais.
Isabel falou sobre o seu trabalho como Enfermeira-Chefe com uma paixão contagiante. Ela não tentou impressioná-lo com falsas etiquetas ou histórias de grandeza. Ela era simples, genuína e dona de uma bondade que era só sua.
O meu avô parou de comer, apoiou os cotovelos na mesa e ficou apenas observando o rosto da minha esposa.
— Você é uma jovem fascinante, Isabel — ele murmurou, a voz subitamente desprovida de qualquer ironia. — Você tem o mesmo olhar e a mesma doçura no sorriso que a minha falecida esposa tinha.
Isabel corou, tocada pelo elogio sincero.
— Muito obrigada, senhor Kingston. Fico lisonjeada com a comparação.
Eu relaxei os ombros pela primeira vez naquela noite. O velho não ia atacá-la.
No entanto, a minha paz durou exatos dez segundos.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nossa! Meu Marido de Aluguel é um Bilionário!
olá! gostaria de lê a história completa, como faço?...