Júlia Santos reprimiu a amargura no peito.
— Não, nunca deixei de reconhecer.-
Isaque Santos a fitou, atento:
— Então por que voltou para o país sem me avisar, nem atendeu minhas ligações?
— Eu já não sou mais uma criança, não precisava te incomodar por uma coisa tão pequena.
Júlia hesitou, depois continuou:
— Isaque, desta vez voltei para ficar. Assinei contrato com a Beatriz, vou trabalhar no Estalo Lab daqui em diante.
— Hum.
O silêncio se estendeu entre eles.
Antigamente, assim que entrava no carro, Júlia se jogava para perto dele e reclamava:
— Isaque, por que demorou tanto? A irmã mais carinhosa, atenciosa e bonita do mundo quase morreu de frio!
Depois agarrava a mão dele para se aquecer.
Agora, ela se sentava ereta, as mãos repousando sobre os joelhos, os dois separados por uma distância cuidadosamente mantida por ela.
— O Estalo Lab cresceu muito nesses anos, fico feliz que esteja gostando.
Isaque disse:
— E à noite, o que quer comer? O irmão te leva para jantar fora, o que acha?
— Eu...
O toque repentino do celular de Isaque interrompeu Júlia.
No visor apareceu o nome “Yasmin”.
Júlia cerrou os lábios, engoliu o que estava prestes a dizer e desviou o olhar para a janela.
O telefone tocou até o fim e, três segundos depois, o som recomeçou.
Júlia franziu a testa, pegou o telefone ao lado e atendeu no viva-voz.
— Isaque, por que ainda não voltou pra casa?
Do outro lado, a voz era doce e repleta de carinho, quase um mimo.
— Mamãe disse que você ia sair à noite, mas não combinamos de jantar juntos hoje? Já estou com saudades!
Isaque lançou um olhar a Júlia, pegou o celular, desligou o viva-voz e encostou-o ao ouvido:
— Surgiu um imprevisto, me desculpe.


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