Lúcia olhou para Antônio como se olhasse para alguém fora de si.
Ele nunca teria dito algo tão cru e tão direto.
Mesmo por interesse, alguém conseguia mudar assim de temperamento?
Lúcia hesitou por alguns segundos e, só então, falou com frieza:
— Você realmente adora encenar.
— ……
Como se levasse um balde de água gelada, a lucidez de Antônio voltou. Ele soltou um riso curto, respirou fundo duas vezes e serviu mais um copo, bebendo em seguida.
— E a Adriana… como você pretende resolver isso?
Lúcia queria ir embora, mas, lembrando que Adriana tinha procurado Antônio naquele mesmo dia, não conseguiu ficar tranquila.
Adriana certamente tinha visto a exposição na mídia e, com o temperamento que tinha, não largaria Antônio com facilidade.
Na verdade, Lúcia já tinha tocado no assunto com a filha, de maneira indireta.
Denise Lacerda sempre tratara Adriana como um apoio emocional, uma espécie de irmã mais velha. Só que Denise era inocente demais, e Adriana sabia como ninguém manipular o coração de uma criança.
Lúcia não queria deixar marcas na filha, por isso falou como quem abria o coração entre mãe e filha: contou, do seu ponto de vista, como Adriana conduzia Denise, como semeava discórdia entre as duas e como, quando estava com Denise, acabava ferindo-a emocionalmente.
Mas Denise era mais madura e mais sensível do que Lúcia imaginara.
Nesse período sem contato com Adriana, a idealização foi se desfazendo aos poucos.
Ao rever o passado, Denise entendeu: Adriana só queria usá-la para se aproximar do pai. E, em comparação, era Lúcia quem de fato a amava e a protegia.
Assim, as intenções por trás de certos gestos de Adriana ficaram evidentes.
Antes mesmo de Lúcia dizer muito, Denise deixou sua posição clara: ficaria sempre do lado da mãe e acreditaria sempre nela.
Quanto a Adriana, Denise disse que não teria mais qualquer contato.
Ao lembrar quantas vezes magoara a mãe por causa de Adriana, Denise agora só sentia culpa e arrependimento.
Com a filha resolvida, Lúcia pôde pressionar Antônio.
Lidar com Adriana com as próprias mãos seria dar barato aos dois.
— A Adriana não é do tipo que sossega. Enquanto ela tiver espaço para se mexer, eu não vou ter paz. Ou ela vai para a cadeia, ou ela sai de Cidade Lagoa Nova para sempre… Ah, e eu ouvi dizer que o ex-marido dela vive procurando por ela, não é?
Ao ver a expressão de Antônio, um fogo sem nome subiu no peito de Lúcia.
Quando Adriana a incriminou, o olhar de Antônio parecia querer devorá-la viva.
Mas, agora que era hora de acertar contas, os olhos dele estavam calmos demais — até com um traço de contenção.
— A polícia já está investigando. Se as provas forem sólidas, ela vai ser punida. Mas o ex-marido dela não é flor que se cheire; se ela voltar, talvez nem sobreviva…
Antes que ele terminasse, Lúcia riu.
No fim das contas, era só pena.
Vendo-o assim, Lúcia perdeu a vontade de continuar. Virou-se devagar e foi embora.
Antônio a chamou de imediato:
— Se for para você desabafar essa raiva, eu faço.
A voz dele soou como quem tomara uma decisão pesada, mas Lúcia não virou o rosto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...