Naquele instante, porém, a expressão de Antônio Lacerda pareceu mais séria, quase solene. A atmosfera não pesou no flerte; em vez disso, instalou-se uma tristeza sutil, difícil de nomear.
Ele pegou a garrafa da mão dela e serviu para si mesmo meio copo. Ainda nem tinha levado à boca quando o canto dos lábios de Lúcia Paiva se mexeu.
— O seu coração não é bom. A Sófia Oliveira disse que você não devia beber.
— Um pouco não faz mal.
Ao ouvir aquela frase dita quase por instinto, Antônio deixou surgir um leve arco no canto da boca.
Ela ainda se importava com ele.
— ……
Lúcia desviou o olhar, deu dois goles, pousou o copo e fez menção de ir embora.
Antônio, no entanto, segurou o braço dela, sem a menor intenção de deixá-la sair assim.
— O que você quer?
— Você disse agora há pouco que eu estava com o coração ferido. Eu não posso deixar você entender errado.
— Entender errado o quê?
Lúcia semicerrrou os olhos.
— Errado? Eu acho que é você que está com a consciência pesada. Largou a Adriana Pessoa para agradar a Família Ximenes… deve ter sido difícil, não foi?
— Você ainda não acredita em mim.
Antônio não se alterou. Ele já sabia que Lúcia pensaria isso.
Entre os dois, os mal-entendidos eram antigos, as mágoas vinham se acumulando havia tempo; não era surpresa nenhuma que ela o julgasse assim.
Lúcia revirou os olhos e tentou se soltar. No instante seguinte, Antônio a beijou de surpresa.
O gesto foi ao mesmo tempo suave e direto, e um calor entorpecente percorreu o corpo dela.
Mas, em questão de segundos, Lúcia o empurrou com força.
Mas, assim que ele terminou, ela voltou a rir.
— Antônio, você enlouqueceu. Você inventa esse tipo de mentira sem sentir vergonha?
— A Adriana é filha do meu professor. Eu devo muito a ele, e devo muito a ela também. Mas, desde sempre, eu só a tratei como alguém a quem eu precisava compensar. Eu, Antônio, juro: eu nunca gostei dela.
Antônio ignorou a reação de Lúcia e continuou, impondo a própria verdade.
— Não gostava dela e tratava ela tão bem? E diz que gostava de mim, mas toda vez que eu precisava de você, você me largava. Você não a amava, mas ela sempre era a sua exceção…
Lúcia não aguentou e rebateu de imediato.
— Foi porque eu não sabia o quanto eu gostava de você. Eu não sabia o quanto eu era egoísta, o quanto eu errei… Mas eu quero mudar. Mesmo que você não me dê chance, eu não quero mais trair o que eu sinto.
Mesmo depois de ser empurrado, Antônio continuou, a voz firme:
— Se você não acreditar em mim, eu vou te dizer de novo. E de novo. Pelo resto da vida, até você acreditar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...