Adriana ficara meio ajoelhada ao lado dele, o cabelo todo desalinhado. Num sobressalto, virou o rosto e puxou depressa a camisa larga que usava por cima, tentando esconder a pele que aparecia por baixo, leve demais para aquela situação.
Mas aquela camisa era, sem dúvida, de Antônio.
— Lúcia… Sra. Paiva, por que a senhora veio?
Adriana foi a primeira a reagir. A voz saiu com um tremor calculado, e ela se encolheu instintivamente para mais perto de Antônio.
Antônio também não tinha recobrado totalmente a consciência. As lembranças da noite anterior ainda vinham em pedaços, sem se encaixar.
Na véspera, ele fora às pressas ao lugar que Adriana indicara, decidido a conferir com os próprios olhos se Nestor realmente podia estar vivo.
Mesmo sabendo, no fundo, que nada parecia confiável, bastava existir uma fresta de esperança para ele querer agarrá-la.
Não só por causa do filho, mas também por Lúcia…
E pela última migalha de esperança entre eles.
Só que os traficantes eram astutos. Quando ele e Adriana chegaram, o grupo já arrancava para fugir. Antônio viu com clareza: dentro de uma Kombi velha, apertavam-se várias crianças de cinco ou seis anos.
Ele não pensou. Atirou-se para impedir o veículo. O motorista acelerou com tudo, e Antônio, no limite, conseguiu se virar e agarrar a porta.
O risco fora absurdo. Adriana se apavorara, desabando no chão, gritando o nome de Antônio sem parar.
Por sorte, Antônio escapara. No tumulto, os criminosos enfiaram o carro numa rua sem saída, e a polícia chegou a tempo.
Mas Antônio se feriu e desmaiou ali mesmo.
Quando acordou de novo, já estava em casa. Adriana dormia curvada ao lado dele, os olhos vermelhos.
Antônio nem tivera tempo de perguntar mais nada a Adriana quando Lúcia entrou de repente.
A voz de Adriana soava sincera, mas cada palavra vinha cuidadosamente colocada. Ela queria provocar Lúcia.
Ela sabia, claro, que Lúcia já não queria voltar para casa havia muito tempo, ainda assim, falava como se, na ausência de Lúcia, ela pudesse ocupar aquele lugar.
— Urgência? Que urgência vocês tinham, para se encontrarem no meio da noite e agora ainda estarem na casa dos outros, na cama…
Lúcia soltou uma risada breve, a voz saiu gelada, cortante. Ela queria ironizar os dois, mas, de repente, sentiu nojo — um nojo tão forte que qualquer frase a mais parecia capaz de fazê-la vomitar.
— Não aconteceu nada. Não invente coisas… — Antônio se desesperou, mas não sabia como explicar.
Adriana pegou o embalo. — Sra. Paiva, na verdade, ontem à noite nós fomos—
— Saia. Agora. — Antônio a interrompeu, rápido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...