Ao ver os olhos da filha vermelhos, Lúcia sentiu a garganta travar, como se algo a entupisse. Só depois de um bom tempo conseguiu falar, com esforço.
— Denise, me desculpa. A mamãe está errada. — Ela se agachou e olhou nos olhos da menina com atenção. — Mas você precisa acreditar: a mamãe nunca vai deixar você sofrer injustiça. Se você realmente quiser escolher o papai, a mamãe vai respeitar a sua decisão.
Denise mordeu o lábio. O rostinho estava cheio de confusão e tristeza.
Ela não sabia como escolher, só conseguiu dizer, baixinho:
— Mamãe, eu quero… pensar mais um pouco.
— Está bem. Pense com calma. — Lúcia afagou a cabeça da filha e se levantou. — Vamos pra casa primeiro, tudo bem?
Denise assentiu, a cabecinha parecia pesar uma tonelada.
No caminho de volta, Denise viu de novo a praça de ontem. Ainda havia gente soltando barquinhos com velas na água, embora já não estivesse tão animado quanto antes.
Mesmo assim, as luzes coloridas se reuniam na superfície e, de longe, pareciam um rio de sete cores.
Denise ficou encostada na janela, hipnotizada.
— Mamãe… — de repente, ela perguntou bem baixinho. — Você acha que o meu desejo vai se realizar?
Lúcia sorriu:
— Claro. Se você pedir de coração, o desejo com certeza se realiza.
Denise assentiu, com o olhar firme.
O desejo dela era que o papai e a mamãe ficassem juntos para sempre, sem se separar nunca mais.
Logo as duas chegaram à Família Lacerda.
— Senhora, como a senhora voltou tão tarde… o senhor, ele… — Ao abrir a porta, Dona Sandra estava estranha, desviou o olhar e espiou para trás, inquieta.
— Eu sei que ele não está. E eu também não vim procurar por ele.
Lúcia, porém, não percebeu a anormalidade. Cortou a fala de Dona Sandra e levou Denise para o quarto.
Naquele momento, ela só queria acomodar a filha, não tinha a menor disposição para se preocupar com Antônio.
Denise também estava exausta. Lúcia ficou um pouco com ela no quarto e, logo, a menina caiu no sono.
A porta do escritório de Antônio estava entreaberta, lá dentro, a luz era fraca, e o silêncio, absoluto.
Lúcia chegou diante da porta e ergueu a mão — mas o gesto congelou.
Ela já tinha empurrado aquela porta incontáveis vezes, encontrando-o lendo ou lidando com documentos.
Apesar de anos como marido e mulher, nunca tinham dividido um quarto de verdade, com intimidade.
Lúcia chegou a pensar que talvez Antônio fosse mesmo esse tipo de homem, distante do mundo, incapaz de amá-la ou de sentir muito.
E que, se quisesse ficar ao lado dele, teria de suportar a solidão.
Até vê-lo em outra casa, com a filha, em harmonia — atendendo a tudo, com gentileza e cuidado.
Lúcia empurrou a porta com força.
A cena sob a luz fraca fez o sangue dela subir de uma vez.
Antônio estava recostado na cabeceira da cama, a camisa aberta no colarinho, expondo na clavícula marcas vermelhas que ainda não tinham desaparecido.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: No Dia do Luto — Traição
Sim acabou a história???...