[Sr. Heitor, comporte-se.]
Pensou por um instante e acrescentou mais algumas palavras.
[Nós não somos íntimos.]
Enviou.
Em seguida, bloqueou e apagou, tudo de uma vez, sem hesitar.
Do lado de fora do vidro, o brilho frenético da Capital recuava depressa, como se a cidade corresse ao contrário.
Beatriz apertou o RG novinho entre os dedos; as pontas ficaram ligeiramente esbranquiçadas.
Dali em diante, por mais longo que fosse o caminho, ela seria apenas ela mesma.
Mas… como se seguia por essa estrada?
Mal tomara a decisão, a realidade já lhe devolvera um tapa atrás do outro.
No dia seguinte, Beatriz foi ao Laboratório Rivelan como de costume, pronta para fazer a passagem das suas tarefas.
O que a recebeu, porém, não foram cumprimentos preocupados, e sim rostos frios, distantes, deliberadamente indiferentes.
O orientador que ela mais respeitava, Dr. Wellington, diretor do Instituto Rivelan de Pesquisa, chamou-a ao escritório.
— Beatriz… ultimamente você… se meteu em algum problema lá fora?
O coração de Beatriz falhou uma batida.
— Professor, o que o senhor quer dizer com isso?
Dr. Wellington suspirou e empurrou uma pasta na direção dela.
— Veja você mesma.
Eram notificações de encerramento de cooperação em projetos.
Sem exceção, todas as instituições parceiras tinham vínculos diretos ou indiretos com o Grupo Monteiro ou com a família Andrade.
— A família Monteiro e a família Andrade pressionaram o instituto ao mesmo tempo, exigindo que a demitíssemos.
Havia um cansaço evidente na voz de Dr. Wellington.
— Beatriz, você foi a minha aluna mais brilhante. Eu conheço o seu talento melhor do que ninguém. Mas o Rivelan… o Rivelan é um lugar acadêmico. Não aguenta o jogo pesado desses tubarões.
Beatriz já esperava que Heitor e a família Andrade não deixariam barato.
— Esta é a minha carta de demissão.
Do bolso da bolsa, ela tirou um documento já preparado e o colocou sobre a mesa de Dr. Wellington.
Aquela carta existia desde o dia em que ela fora contratada.
Ela não queria mais se colocar numa posição passiva.
Imaginara que, no mínimo, levaria um ano, talvez mais, para precisar dela.
Não esperara que fosse tão rápido…
Fora ingênua demais.
Dr. Wellington ficou atônito, claramente sem esperar tamanha firmeza.
— Beatriz, não seja impulsiva! Se você sair do Rivelan, que instituto na Capital vai ousar contratá-la?
— Não é isso que o senhor quer ver? — Beatriz puxou o canto dos lábios num sorriso de escárnio. — Trocar o meu futuro pela paz do instituto. Um bom negócio.
Dito isso, ela não o encarou mais. Virou-se e saiu do escritório.
No instante em que deixou o Rivelan, uma garoa fina começou a cair do céu.

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