Guilherme ergueu a cabeça e viu Beatriz com os olhos bem fechados; nas longas pestanas, lágrimas límpidas pendiam como cristal.
Mesmo com a consciência turva, ela continuava a chorar.
Aquela lágrima caiu nele como um balde de água gelada, despertando de súbito tudo o que o desejo lhe entorpecera.
O que ele estava fazendo?
Ela mal tinha escapado de um inferno.
Ela lhe pedira socorro, tão desamparada.
E ele, aproveitando-se da fraqueza dela, quase...
Guilherme, ele se odiou.
Interrompeu tudo de supetão e, com a maior força de vontade de toda a vida, afastou-se dela.
Ao encarar a mulher em seus braços — a roupa desalinhada, as faces ruborizadas, o canto dos olhos ainda marcado por lágrimas — sentiu uma dor tão aguda no peito que quase lhe faltou ar.
Tirou o paletó do terno e, com uma delicadeza cuidadosa, cobriu centímetro a centímetro a pele dela exposta ao ar.
Em seguida, levou-a com leveza até a cama, puxou o cobertor de veludo e envolveu o corpo magro dela com firmeza, deixando à vista apenas um rosto pequeno, do tamanho da palma de uma mão.
Quando terminou, virou-se como quem foge e entrou a passos largos no banheiro.
“Shhh—”
A água fria despencou sobre sua cabeça.
Guilherme fechou os olhos e deixou a água castigá-lo.
Meia hora depois, pegou o telefone interno do quarto.
No instante em que a ligação completou, quando voltou a falar, sua voz já retomara a frieza e a calma habituais, sem a menor sombra de emoção.
— Bruno.
— Sr. Guilherme, quais são as ordens?
— Duas exigências.
O olhar de Guilherme atravessou a porta de vidro do banheiro e pousou naquele pequeno volume sobre a cama; sua voz ficou tão fria que parecia soltar lascas de gelo.
— Primeira: faça o Sr. Henrique dormir no quarto dele até o meio-dia de amanhã.
— Sim, senhor.
Henrique virou-se, alerta.
Dois seguranças de terno preto e óculos escuros, sólidos como torres, entraram sem expressão.
— Quem são vocês? Vocês sabem quem eu sou?!
Henrique berrou, tentando parecer mais ameaçador do que era.
Um deles nem se deu ao trabalho de responder e foi direto até ele.
Henrique não teve tempo de reagir. Sentiu uma dor aguda na nuca, a visão escureceu e ele perdeu a consciência por completo.
O outro tirou do bolso uma garrafa de destilado forte e, com habilidade, despejou mais da metade sobre Henrique e sobre o carpete do quarto.
Depois, jogou o corpo gordo dele na cama, numa postura indecorosa.
Por fim, pegou de cima da mesa um vaso antigo de alto valor e, no criado-mudo ao lado da cama, bateu de leve — o suficiente para abrir uma fissura.
Uma fissura fina, discreta, porém fatal.
O bastante para fazer qualquer conhecedor sentir o estômago revirar.
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