Ao entardecer, Beatriz pegou um carro por aplicativo e voltou àquele “lar” do qual estava afastada havia tanto tempo.
Mansão Andrade…
A casa fora o dote de sua mãe.
Mas, ali dentro, Beatriz vivera pior do que uma empregada.
Do lado de fora do portão de ferro trabalhado, ela observou as luzes acesas, como se fosse um mundo que não lhe pertencia.
Depois de inspirar fundo, tocou a campainha.
Quem abriu foi Larissa.
Ela usava um vestido branco, os cabelos caíam macios sobre os ombros; o rosto estava pálido, os olhos inchados e vermelhos, como alguém que sofrera uma injustiça do tamanho do mundo.
Ao ver Beatriz, ela encolheu por instinto e, em seguida, forçou um sorriso mais feio do que choro.
— Mana… você voltou.
A voz saiu frágil, tremida.
Beatriz nem se deu ao trabalho de responder e entrou.
Na sala, Felipe veio ao encontro dela com um sorriso aberto.
— Ah, Beatriz voltou! Entra, entra!
Aquele entusiasmo fazia parecer que não fora ele quem a expulsara.
Miguel estava no sofá, com a perna cruzada. No instante em que a viu, soltou um resmungo pelo nariz, o olhar cheio de desprezo.
Matheus a mediu de cima a baixo, avaliando-a.
Só Lucas se levantou. O rosto dele estava complicado, como se não soubesse onde colocar as mãos. Depois de dois segundos, perguntou:
— Beatriz… você está… melhor?
— Não vou morrer.
Beatriz respondeu sem emoção e sentou-se na poltrona mais distante.
As palavras gelaram o ar.
Miguel se ergueu de supetão e apontou para ela, xingando:
O clima à mesa tornou-se estranho, apertado.
Felipe tossiu, procurando assunto.
— Beatriz, sobre aquela sua tese… poxa… você honrou a nossa família Andrade. Você não faz ideia: fulano e ciclano me ligaram pra me dar parabéns, dizendo que eu criei uma filha exemplar.
Ele estava visivelmente orgulhoso.
Como se o resultado arrancado a custo de noites sem dormir fosse mérito da família Andrade.
Miguel, ao lado, entrou com ironia:
— É, honrou. Honrou até lá fora. Agora que ficou “internacional”, deve achar que essa casa é pequena demais pra você.
A frase era uma provocação. Por baixo, era acusação: ela teria “subido” e esquecido as raízes.
Matheus pousou os talheres e encarou-a com seriedade, assumindo o tom de irmão mais velho.
— Beatriz, seu segundo irmão fala mal, mas a lógica é essa.
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