O Cartório da Capital.
O ar estava impregnado de cheiro de desinfetante e de um constrangimento quase palpável.
Beatriz sentou-se, com uma caneta preta entre os dedos.
À sua frente estava Heitor, de terno impecável e expressão fria.
Do começo ao fim, ele não disse uma palavra. Apenas a encarou, com aqueles olhos profundos, fixos nela.
Como se julgasse. Como se investigasse.
Ele achou que a veria chorar, ou fazer escândalo, ou ao menos demonstrar algum apego.
Afinal, aquela mulher o amara por cinco anos — amara de um jeito tão humilde que parecia virar poeira.
Mas ela não fez nada disso.
O rosto de Beatriz permaneceu calmo como um lago congelado, sem a menor ondulação.
A funcionária seguiu o roteiro, mecânica:
— Os dois pensaram bem? Confirmam que o divórcio é voluntário?
Heitor permaneceu em silêncio, o olhar ainda colado nela.
Beatriz ergueu os olhos e sustentou a visão dele; no canto dos lábios, desenhou-se um arco quase imperceptível, próximo do deboche.
Ela respondeu com clareza:
— Confirmo.
A voz saiu fria, direta, sem um traço de nostalgia.
O coração de Heitor, inexplicavelmente, levou uma fisgada.
Ele franziu a testa. Um incômodo sem nome subiu do fundo do peito.
Beatriz não voltou a olhá-lo.
Pegou a caneta, sem hesitar.
Naquele acordo que simbolizava o fim de cinco anos de casamento, assinou o próprio nome.
Traço por traço, nítido e contido, como quem assina o recebimento de uma encomenda sem importância.
Ao terminar, empurrou o documento na direção dele, com um gesto fluido, como se tivesse repetido aquilo mil vezes.
— A sua vez, Sr. Heitor.
Aquele “Sr. Heitor”, distante e polido, foi uma lâmina invisível que cortou, de uma vez, o último fio entre os dois.
A expressão de Heitor escureceu ainda mais.
Cobrar que ela não estivesse triste?
Zombar que ela enfim conseguira o que queria?
Nada parecia caber.
Nesse breve vacilo, o corpo esguio já havia desaparecido por completo além da porta do Cartório.
Ela saiu do mundo dele com uma limpeza implacável.
Aquela calma extrema, aquela frieza, transformou-se numa agulha invisível, espetando o coração de Heitor, ponto por ponto.
Não doía. Mas sufocava.
Ele puxou a gravata, irritado, e pela primeira vez sentiu que as coisas talvez estivessem escapando do controle.
Naquela mesma noite, às onze e cinquenta e nove.
Nos arredores da cidade, no laboratório “Eixo Norte”.
Na tela circular gigantesca, linhas e mais linhas de código corriam como uma cachoeira.
Beatriz estava no console, os olhos injetados, presos à barra de progresso no centro.
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