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No Dia do Divórcio, Ele Me Trancou no Frigorífico romance Capítulo 23

Por mais de dez segundos, não se ouviu nada. Então a voz de Clarinda voltou, urgente, incrédula e preocupada.

— Beatriz?! É você?! O que aconteceu com a sua voz?! O que houve?!

— Onde você está?!

Meia hora depois.

Um Fusca meio gasto freou bruscamente diante de Beatriz.

A porta se abriu e Clarinda desceu correndo, com o cabelo cacheado todo bagunçado, de pijama e chinelos.

Quando viu Beatriz encolhida no canto do orelhão, abraçando os joelhos, tão magra que parecia papel, os olhos de Clarinda se encheram de lágrimas.

— Meu Deus… Beatriz… o que foi que fizeram com você…

Clarinda não perguntou nada. Apenas a colocou no carro e, com esforço, pôs a mala no porta-malas.

Seguiu em disparada até o apartamento que alugava — um de um quarto, apertado e até sufocante.

Era pequeno, mas limpo e acolhedor.

A luz amarela e quente dissipou um pouco do frio que Beatriz carregava no corpo.

Clarinda a fez sentar num sofá de tecido, pequeno porém macio, e correu atrapalhada para buscar água quente e o kit de primeiros socorros.

Vendo o rosto da amiga tomado de dor e preocupação, Beatriz pegou o copo morno; o vapor embaçou-lhe a visão.

Ela baixou a cabeça e agradeceu num fio de voz.

— Obrigada, Clarinda.

O cansaço do corpo, naquele espaço pequeno e quente, enfim afrouxou um pouco.

Mas o coração — arrancado em vida pelos próprios parentes, ferido por todos os lados — doía com uma nitidez ainda maior na quietude da madrugada.

Cena por cena, voz por voz.

O nojo de Matheus, os insultos de Miguel, a armação de Larissa e… a ordem gelada do pai: “Fora”.

Como um filme em câmera lenta, tudo se repetiu na mente dela.

Doía.

Doía a ponto de até respirar parecer luxo.

Clarinda olhou para aquele estado e não perguntou nada.

De mãos na cintura, ela mediu Beatriz de cima a baixo, como uma galinha protegendo o próprio filhote; no olhar, havia um desconforto difícil de esconder.

— E outra: eu não tô com pena de você.

Clarinda falou de repente, num tom mais complexo.

— Eu só não suporto ver canalha pisando nos outros.

Beatriz ficou imóvel.

Clarinda bufou e virou o rosto, como se estivesse sem jeito.

— Quando eu vi aquele post na internet dizendo que você fraudou pesquisa, eu não acreditei em uma palavra.

— Eu sei muito bem o que a Larissa é.

— Na faculdade, pra roubar uma vaga, ela era capaz de formatar o computador da concorrente de madrugada. Eu vi com meus próprios olhos. O que ela fala, nem cachorro leva a sério.

O coração de Beatriz pareceu levar um leve choque.

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