Ao observar as reações dos membros da família Cavalcanti, Sabrina franziu o cenho.
— Samuel, o Júlio é nossa visita! Eu não disse para você cuidar bem dele?!
Samuel, que era meia cabeça mais baixo que Júlio, tremia de tanto chorar.
— Mas eu cuidei... Eu deixei ele brincar no cavalo... Mas ele disse... disse que tinha um cavalo elétrico e que o meu era feio... E eu falei... Falei para ele não brincar se não gostasse... Que a gente podia brincar de outra coisa... Mas ele não quis e ainda me empurrou...
Ao ouvirem o relato choroso de Samuel, as expressões da família Cavalcanti mudaram.
Júlio de fato tinha um cavalo elétrico, e não apenas um, mas vários. Havia os que ficavam no apartamento e também no Solar da Família Cavalcanti.
Aquelas crianças tinham acabado de se conhecer. Não haveria como Samuel inventar algo assim do nada a menos que o próprio Júlio tivesse contado.
— Mentira! — Sabrina continuava a encarar o irmão com firmeza. — Se você diz que o Júlio te empurrou, por que ele também caiu?
Ao ver que Sabrina não estava defendendo o próprio irmão, mas sim Júlio, Yara Inácio ficou ainda mais encantada com a futura nora.
Questionado pela irmã, Samuel chorou com ainda mais tristeza. Ele ergueu o braço para enxugar as lágrimas, deixando à mostra os cotovelos arranhados e sangrando para todos verem.
— Ele caiu sozinho...
Ouvindo aquilo, os olhos de Júlio se arregalaram. Tomado por uma raiva descontrolada, ele apontou o dedo na direção de Samuel e berrou com a voz esganiçada:
— Seu mentiroso! Foi você quem me empurrou!
Assustado, Samuel recuou alguns passos e escondeu o rosto no ombro de Sônia.
— Eu não empurrei... Foi ele que me empurrou com tanta força que perdeu o equilíbrio e caiu do cavalo... Eu não empurrei ele...
A família inteira paparicava Júlio, especialmente Yara e Camila, que o protegiam sem limites. Na escola, seu temperamento autoritário e birrento fazia com que tivesse muita dificuldade de fazer amigos.
Portanto, a história de Samuel era mais do que plausível. Era bem provável que Júlio tivesse desdenhado do cavalinho e se recusado a ouvir o outro garoto, empurrando-o no momento em que ele ousasse revidar.
Apesar da pouca idade, Júlio percebeu que os adultos estavam olhando para ele de um jeito diferente.
Até mesmo sua avó e sua tia, que sempre o acobertavam, o encaravam com certa dúvida.
— É mentira dele! Eu não fiz nada! — Júlio encarava Samuel, seus olhos vermelhos de raiva. — Você é quem me empurrou! Você é um menino mau! Eu vou te matar!
— Aaaah! Socorro!
Aterrorizado com a fúria de Júlio, Samuel soltou um grito de pânico e tentou se espremer ainda mais no abraço de Sônia.

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