POV: Chiara
O café da manhã se estendeu para a sala de estar, um ambiente que geralmente me passava uma sensação de frieza e autoridade, mas que agora, com a presença de Aurora e Sofia, parecia ter ganhado uma vida nova. O sol entrava pelas grandes janelas, iluminando o pó que dançava no ar e refletindo nos detalhes em ouro dos móveis. Sentamos nos sofás de veludo, e por um momento, quase esqueci que estava em uma fortaleza da máfia. Quase.
Eu sentia uma curiosidade latente queimando em meu peito. Eu conhecia o Massimo homem, o Don possessivo, o "diabo" que ele mesmo dizia ser. Mas quem era o menino por trás daquela armadura de músculos, tatuagens e frieza?
— Aurora — comecei, girando a xícara de porcelana entre as mãos. — Você poderia me contar um pouco mais sobre como o Massimo era... antes? Como foi a infância dele aqui?
Aurora suspirou, e seu olhar pareceu viajar para décadas atrás. Ela ajeitou a postura, e a elegância inata que possuía pareceu ganhar uma camada de melancolia.
— No meio em que vivemos, Chiara, o conceito de "infância normal" é quase uma lenda urbana. Especialmente para os filhos homens, e ainda mais para o primogênito. Eles não têm o luxo da inocência por muito tempo. Muitos começam a ser treinados assim que aprendem a andar com firmeza. E com o Massimo... não foi diferente. Ele foi ensinado, moldado e treinado para ser a máquina que é hoje.
— Quando a mamãe diz "máquina" — Sofia interrompeu, cruzando as pernas e balançando o pé com desdém —, o que ela quer dizer é o homem frio, calculista e manipulador que meu irmão se tornou. Vamos dar nome aos bois, não é?
— Sofia! — Aurora a repreendeu com um olhar severo. — Não fale assim do seu irmão. Ele foi treinado para comandar esta família, para proteger todos nós. É o destino dele, e ele não tinha para onde fugir. Alguém precisava carregar o peso da coroa.
Eu senti um aperto no peito ao ouvir aquilo.
— Quer dizer que ele não teve escolha? — perguntei, a voz saindo quase em um sussurro.
— Nenhuma — Aurora respondeu de forma curta e direta. — O destino de Massimo foi selado no momento em que ele nasceu.
— Lembro-me de quando ele tinha uns seis anos. O pai dele tinha acabado de lhe dar um cavalo, um animal imenso e imponente, para que ele aprendesse a dominar a fera. Mas o Massimo, em vez de tentar montar ou mostrar autoridade, foi encontrado horas depois dentro da baia, escondido, tentando ensinar o cavalo a "jogar cartas". Ele tinha roubado um baralho do escritório do pai e estava sentado no feno, explicando as regras do poker para o animal. Quando o pai o encontrou, Massimo disse com toda a seriedade do mundo: "Papai, se ele aprender a blefar, ninguém vai ganhar de nós".
Sofia caiu na gargalhada, e eu não pude deixar de sorrir. Imaginar o pequeno Massimo, o futuro Don impiedoso, tentando ensinar poker a um cavalo era uma imagem deliciosamente absurda.
— Ele sempre foi focado em estratégia — Sofia comentou, limpando uma lágrima de riso. — Mesmo que a estratégia fosse absurda.
Nossa conversa foi interrompida pelo som de pneus no cascalho lá fora. Meu coração saltou.
— Deve ser a Giulia! — eu disse, levantando-me rapidamente.

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