O tempo continuou a passar, e a ausência dos três começou a se estender mais do que o normal. Olhei para o relógio de pulso e depois para Massimo.
— Já se passou mais de meia hora e as meninas ainda não retornaram — Massimo comentou, a sua voz demonstrando a habitual impaciência e o instinto de proteção sempre alerta.
— Elas devem estar apenas retocando a maquiagem, Massimo. Você sabe como mulheres são no banheiro — respondi de forma tranquila, tentando minimizar a situação.
Massimo estreitou os olhos escuros, fixando o olhar em mim de um jeito penetrante.
— Chiara... você está escondendo alguma coisa de mim? — ele perguntou, direto e desconfiado.
— Claro que não, Massimo — retruquei imediatamente, sustentando o olhar dele sem vacilar. — Apenas respondi o que as meninas provavelmente devem estar fazendo. Banheiro de boate sempre tem fila ou conversa.
Não convencido, Massimo virou-se para a entrada do camarote e chamou um dos seguranças.
— Enzo! — ordenou em um tom firme.
Enzo aproximou-se imediatamente, postando-se em posição de sentido.
— Sim, Don?
— Vá até a área dos banheiros e verifique se aconteceu alguma coisa com a Sofia e com a Giulia. Elas estão demorando demais — Massimo instruiu.
Percebendo que a situação poderia fugir do controle se um segurança aparecesse por lá, interrompi no mesmo instante, segurando o braço de Massimo.
— Não precisa se preocupar com isso, Enzo. Não vá — comandei, virando-me para o meu noivo. — Eu mesma vou até lá procurar as meninas. O Enzo é um homem desse tamanho, Massimo, não seria nada apropriado ou confortável ele entrar ou ficar rondando a porta do banheiro feminino. Eu resolvo isso.
Massimo trocou um olhar rápido com Adrian, que apenas assentiu levemente, concordando com a minha lógica.
— Está bem — Massimo cedeu, relaxando o aperto na minha cintura. — Vá e traga as duas de volta.
Levantei-me do seu colo, ajeitei o meu vestido de cetim e caminhei em direção à saída da área vip, deixando os homens para trás.
A minha decisão de ir pessoalmente não foi por etiqueta, mas sim por causa das minhas desconfianças crescentes. Atravessei o camarote e segui pelo corredor menos movimentado que dava acesso aos banheiros privativos do andar superior. Conforme ia me aproximando do fim do corredor, onde a iluminação era mais fraca e o som da pista chegava mais abafado, comecei a ouvir vozes conhecidas.
Diminuí o ritmo dos meus passos, movendo-me em silêncio. Quando cheguei perto o suficiente da curva da parede, avistei Matteo, Giulia e Sofia parados em um canto isolado, conversando em sussurros tensos. Eles pareciam não notar nada ao redor.
Aproximei-me um pouco mais e consegui escutar claramente quando Matteo, com a voz carregada de frustração e nervosismo, disse:
— Sofia, se o Massimo descobre o que aconteceu aqui, ele mesmo me mata! Porra... você é a irmã dele!
O meu sangue gelou por um segundo, confirmando todas as minhas teorias. Dei dois passos à frente e pigarreei alto para anunciar a minha presença.
— Hum, hum — fiz o som na garganta.
Os três deram um sobressalto idêntico, afastando-se no mesmo milésimo de segundo. Matteo se virou para mim com os olhos arregalados, exibindo uma mistura nítida de surpresa e um visível alívio ao perceber quem era.
Cruzei os braços, encarando-os com uma sobrancelha arqueada e um sorriso irônico.
— Estão aliviados por não ter sido o Enzo ou o próprio Massimo a encontrar essa ceninha entre vocês três aqui no corredor? — perguntei, a minha voz saindo fria e cortante.
Sofia deu um passo à frente, soltando o ar que prendia nos pulmões. Ela olhou para os lados para garantir que estávamos sozinhas e aproximou-se rapidamente de mim, com as mãos juntas em um gesto de súplica.
— Cunhada, por favor... por tudo o que é mais sagrado, não fala nada para o meu irmão! — ela pediu, a voz trêmula de preocupação. — Você sabe como ele é.
Olhei para os três por alguns segundos, processando a gravidade do que estava acontecendo bem debaixo do nariz do Don.
— Eu não vou falar nada — respondi, pausadamente, fazendo Sofia respirar aliviada. — Mas fiquem sabendo de uma coisa: eu também não vou mentir se o Massimo descobrir por outros meios e vier me perguntar alguma coisa diretamente. Eu não vou queimar o meu filme com ele por causa das armações de vocês.
Em seguida, desviei o meu olhar para Giulia. Senti uma pontada real de tristeza e decepção no peito. Nós éramos melhores amigas, confidentes desde sempre. Ver que ela estava envolvida em algo tão complexo com a família de Massimo e não tinha aberto a boca para mim doía.
No mesmo instante em que Massimo pronunciou aquelas palavras, percebi de relance o exato momento em que Giulia e Sofia travaram os movimentos, virando os olhos rapidamente na direção de Matteo com expressões que misturavam choque e uma tensão contida.
Matteo, sem perder a pose, soltou uma gargalhada alta e serviu-se de mais um gole de whisky.
— E era exatamente isso o que eu estava fazendo, Massimo. Estava fodendo uma das putas lá embaixo, no escritório. Fui testar a garota nova que o Cesare colocou para substituir a Elettra. Negócios são negócios, o controle de qualidade precisa ser feito.
Adrian balançou a cabeça de um lado para o outro em claro sinal de desprovação, largando o seu copo de água na mesa com força.
— Matteo, você tem que parar com essa porcaria — Adrian repreendeu, com a sua voz autoritária e sensata. — Precisa tomar vergonha e procurar uma mulher de verdade para colocar na sua vida, em vez de ficar fodendo putas pelos cantos e nos clubes da Tríade o tempo todo. Essa vida não vai te levar a nada.
Massimo endireitou a postura no sofá, a sua expressão tornando-se mais séria e ponderada. Ele estendeu o braço, envolveu a minha cintura com firmeza e me puxou para o seu colo novamente, selando a sua posse diante de todos.
— Eu preciso concordar com o Adrian dessa vez, Matteo — Massimo disse, olhando fixamente para ele. — Uma vez a Sofia me disse que nós três éramos homens devassos e promíscuos. E ela estava certa. Mas a verdade é que não podemos viver sempre dessa forma, nessa corda bamba. Eu tenho que concordar com ela. Eu já segui o meu rumo, escolhi a minha mulher e saí dessa vida de libertinagem. Você deveria fazer o mesmo.
Matteo recostou-se no sofá de couro, soltando uma risada sarcástica que ecoou pelo camarote, parecendo não se importar nem um pouco com o sermão dos dois líderes da família.
— Ah, por favor... — Matteo zombou, cruzando as pernas e acendendo um cigarro. — Está para nascer a mulher que vai ter a capacidade de colocar uma coleira em mim. Eu nasci livre e pretendo continuar assim.
Adrian soltou um suspiro pesado, olhando para ele com desdém.
— Quem sabe quando você retornar para a Rússia, Matteo... Quem sabe lá você não decide dar uma oportunidade real para alguma mulher da sua terra e criar juízo de uma vez por todas.
Matteo tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente para o alto antes de abrir mais um daqueles seus sorrisos insolentes que escondiam segredos demais.
— Esqueçam a Rússia. Eu gosto da vida exatamente do jeito que ela é... Promíscua e sem amarras. É muito mais divertida.
Eu continuei em silêncio no colo de Massimo, sentindo o compasso do seu coração no meu peito. Olhei para Giulia e depois para Sofia; as duas mantinham os olhos fixos nos seus próprios copos, bebendo em silêncio, enquanto Matteo continuava o seu teatro de homem descompromissado. O jogo estava ficando cada vez mais perigoso, e a bomba relógio daquela mansão estava com o cronômetro correndo rápido demais.

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