Cruzei o hall de entrada, retirando o casaco leve que usava, e caminhei em direção à sala de estar principal. O silêncio da casa foi quebrado pelo som sutil de vozes vindas do ambiente. Quando dei o primeiro passo para dentro da sala, parei por um instante, um pouco surpresa com a cena que encontrei.
Sofia estava na sala, conversando em russo com Matteo. A proximidade deles era evidente. Matteo estava sentado confortavelmente em uma das pontas do imenso sofá de couro, enquanto Sofia estava completamente deitada ao longo do estofado, com a cabeça repousada folgadamente sobre as pernas dele. O que mais me chamou a atenção foi o comportamento de Matteo: ele passava a mão pelos cabelos compridos dela com uma lentidão distraída, fazendo um carinho contínuo no topo da sua cabeça enquanto respondia às frases na língua nativa dele.
Achei aquela interação um pouco estranha no primeiro milésimo de segundo. Havia uma intimidade ali que ia além do que eu costumava ver na mansão. Mas logo balancei a cabeça mentalmente, afastando qualquer pensamento bobo. Eu me lembrei de como Massimo sempre falava sobre a estrutura da Tríade; ele dizia com frequência que Matteo e Adrian não eram apenas seus amigos e aliados, mas eram como seus próprios irmãos de sangue, criados sob o mesmo teto e lealdade. Sendo assim, era natural que Sofia tivesse exatamente essa mesma visão deles. Para ela, Matteo e Adrian eram seus irmãos mais velhos, e aquele carinho era apenas o reflexo de uma família que tentava se apoiar no meio de um luto tão violento.
— Boa tarde — falei em voz alta, terminando de entrar na sala para não parecer que estava espionando.
Ao ouvirem a minha voz, ambos interromperam a conversa em russo e olharam na minha direção.
— Boa tarde, Chiara — responderam quase juntos.
Matteo, num reflexo puramente automático, ajeitou a postura imediatamente, desencostando-se um pouco do sofá, mas Sofia continuou confortavelmente deitada com a cabeça no colo dele, demonstrando o quanto estava exausta e mimada pelo "irmão".
Caminhei até a poltrona em frente ao sofá e me sentei, sorrindo de leve para tentar quebrar o gelo.
— Desculpe interromper o momento de vocês. Como está a dona Aurora?
Sofia soltou um suspiro longo, olhando para o teto antes de focar os olhos em mim.
A voz dele não foi um grito, mas saiu tão baixa, firme e carregada de uma advertência letal que fez o meu estômago dar voltas. Era o tom de um chefe que não tolerava desvios de conduta sob o seu teto.
O efeito foi imediato. Sofia arregalou os olhos, o rosto perdendo um pouco da cor, e levantou-se do sofá em um solavanco, sentando-se ereta e afastando-se de Matteo em um piscar de olhos. Matteo também recolheu as mãos rapidamente, assumindo uma postura completamente rígida, pigarreando enquanto desviava o olhar para os papéis em cima da mesa de centro.
Adrian, que observava tudo da sua cadeira de rodas, apenas soltou um suspiro curto e balançou a cabeça de leve, como se já esperasse pela reação de Massimo.
Massimo deu dois passos para dentro da sala, mantendo os olhos fixos na irmã, deixando claro que, mesmo no meio de uma guerra contra Moretti, ele ainda controlava cada detalhe do que acontecia dentro das paredes da mansão Capone. A tensão estava de volta, espessa o suficiente para ser cortada com uma faca, e eu observei tudo em silêncio, percebendo que a dinâmica daquela família era muito mais complexa e cheia de regras invisíveis do que eu jamais seria capaz de compreender completamente.

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