Caminhei devagar até ela, deixando Chiara por um instante. Olhei nos olhos da minha mãe e vi a dor do mundo inteiro concentrada ali.
— Eu sinto muito, mãe — falei, e aquela foi uma das frases mais difíceis que já proferi na vida. — O ferimento foi fatal. Ele não resistiu.
No mesmo segundo em que as palavras saíram da minha boca, as pernas de Aurora vacilaram. Ela soltou um grito dilacerante, um som de pura agonia que ecoou pelas paredes da mansão, e desabou. Eu a amparei antes que ela atingisse o chão, puxando-a para um abraço apertado. Minha mãe chorava copiosamente, socando levemente o meu peito em meio ao desespero, agarrando-se ao meu terno sujo como se tentasse segurar os restos do marido. Matteo aproximou-se pelo outro lado, ajoelhando-se e envolvendo nós dois com os braços, oferecendo o pouco conforto que ele poderia dar.
Pelo canto do olho, vi Sofia cobrir a boca com as mãos, as lágrimas escorrendo livremente. Ela deu um passo para trás, completamente sem chão, e Chiara moveu-se imediatamente para o lado dela. Chiara puxou Sofia para um abraço apertado, e minha irmã chorou escondendo o rosto no ombro de Chiara, encontrando nela o apoio que precisava naquele minuto de escuridão.
Ficamos ali por longos minutos, compartilhando o peso daquela perda trágica. Quando o choro de Aurora transformou-se em uma hiperventilação perigosa, fiz um sinal para Francesca, a governanta da casa que aguardava no canto da sala com uma bandeja de medicamentos.
— Vamos levá-la para o andar de cima — ordenei baixo para Matteo.
Nós dois ajudamos minha mãe a se levantar e a guiamos com cuidado até um dos quartos de hóspedes do primeiro andar. Francesca já havia preparado o banheiro. Deixamos que as mulheres ajudassem Aurora a tomar um banho morno para tirar a tensão do corpo. Quando ela saiu, vestindo uma camisola limpa, ainda soluçando baixinho, Francesca aproximou-se com um copo de água e um comprimido calmante de tarja preta.
— Eu não quero dormir, Massimo... Eu preciso ver o seu pai... Eu preciso... — Aurora protestou, a voz fraca, tentando empurrar a mão da governanta.
Aproximei-me da cama e segurei a mão trêmula da minha mãe, olhando nos olhos dela com firmeza, mas com todo o carinho que eu possuía.
— É necessário, mãe. Você passou por um trauma terrível e o seu corpo não vai aguentar se você não descansar. Você precisa se acalmar. Amanhã teremos muitas coisas para resolver, e eu preciso que você esteja forte. Tome o remédio. Por mim.
Ela olhou para mim, vendo a determinação nos meus olhos, e finalmente cedeu. Engoliu o comprimido com um gole de água e deitou a cabeça no travesseiro.
Sofia, que já tinha ido para outro quarto tomar um banho rápido e trocar de roupa por uma combinação de moletom simples, entrou no quarto de hóspedes. Ela tinha os olhos inchados, mas sua postura estava mais controlada. Ela caminhou até o outro lado da cama de casal e deitou-se ao lado de nossa mãe, puxando o cobertor sobre as duas.
— Eu vou ficar com ela, Massimo. Vou fazer companhia a noite toda — Sofia disse, aninhando-se perto da nossa mãe, que já começava a sentir o efeito pesado do sedativo.
— Obrigado, Sofia. Se precisarem de qualquer coisa, os guardas estão na porta — respondi, dando um beijo na testa da minha irmã e outro na da minha mãe, que já fechava os olhos.
Matteo, Francesca e eu saímos do quarto devagar, fechando a porta com cuidado. No corredor, olhei para o Matteo.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. O único som no banheiro era o da água batendo contra o chão de mármore e o da nossa respiração sincronizada. Chiara acomodou o rosto perfeitamente no centro do meu peito, exatamente sobre o meu coração. Eu conseguia sentir o calor da pele dela e a forma como ela pressionava o ouvido contra mim, escutando as batidas rítmicas e aceleradas do meu coração, certificando-se de que eu estava realmente vivo, ali com ela.
Abracei-a de volta com força, enterrando o meu rosto em seus cabelos molhados, inalando o cheiro familiar do seu xampu que me trazia de volta à sanidade. Chiara era a minha âncora no meio daquele oceano de sangue e violência.
Depois de muito tempo naquele abraço silencioso, ela levantou o rosto devagar, os olhos verdes me encarando com uma profundidade que lia a minha alma.
— Massimo... eu sinto tanto, tanto mesmo pelo que aconteceu com o seu pai — ela disse, a voz embargada pela emoção, mas firme. — Eu sei que a relação de vocês era complicada, mas ele era o seu pai. E pensar que ele morreu para que eu pudesse estar aqui agora... eu não sei como processar isso.
Passei as mãos pelos ombros molhados dela, descendo até sua cintura e colando nossos corpos ainda mais sob o fluxo da água.
— Você não precisa processar nada, Chiara. Meu pai viveu pelos códigos da máfia e morreu por eles. No último segundo da vida dele, ele tomou a decisão mais nobre de toda a sua existência: ele protegeu a mulher que eu escolhi. Ele validou você como uma Capone. E eu nunca vou esquecer o que ele fez.
Inclinei-me e juntei nossos lábios em um beijo calmo, profundo, carregado de uma promessa silenciosa de proteção mútua. A água quente continuava a cair sobre nós, lavando o passado e nos preparando para o futuro que teríamos que construir juntos sobre as cinzas daquela noite. Vittorio Capone estava morto, mas o império agora era totalmente meu, e eu usaria cada grama do meu poder para garantir que Chiara nunca mais ficasse na linha de frente de uma arma.

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