~~ Leon ~~
Houve um tempo em que o Natal, para mim, era apenas um lembrete estatístico da passagem do tempo e uma obrigação social vazia. Eu costumava observar as luzes da cidade do alto do meu escritório, sentindo que o gelo no meu peito era mais frio do que qualquer inverno. Mas hoje, ao cruzar o hall da mansão D’Ávila, o cheiro da rabanada de Vera e o som de gargalhadas infantis me atingiram como o mais potente dos antídotos.
A sala de estar estava irreconhecível. Uma árvore de dois metros de altura ostentava enfeites que Luana, Amanda e Beatriz haviam escolhido. Mas o verdadeiro ornamento daquela noite eram os dois balanços eletrônicos perto da lareira desativada.
Luan e Erick, agora com três meses, eram pequenos milagres ruivos que pareciam iluminar o ambiente. Luan, o mais velho por minutos, tinha o meu olhar atento, observando cada luz piscar com uma curiosidade analítica. Já Erick era puro carisma, distribuindo sorrisos banguelas para quem chegasse perto.
— Eles estão a cara da Isadora hoje — Nathan comentou, aproximando-se com uma taça de vinho. Ele parecia estranhamente inquieto, ajeitando o nó da gravata a cada cinco minutos.
— Estão com a beleza dela e a minha teimosia — brinquei, mas logo percebi a mão trêmula do meu amigo. — O que houve, Nathan? Você parece um suspeito prestes a ser interrogado.
Ele respirou fundo e tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.
— Eu vou fazer hoje, Leon. Não aguento mais esperar. A Marina mudou a minha vida tanto quanto a Isadora mudou a sua, e quero que ela seja minha esposa.
Senti um orgulho imenso. Nathan fora meu escudo nos dias mais sombrios, e vê-lo encontrar sua própria luz era a peça que faltava no meu quebra-cabeça de felicidade.
Após a ceia monumental de Vera, quando o relógio marcou meia-noite, Nathan pediu silêncio. Marina, que estava com o pequeno Erick no colo, olhou para ele curiosa.
— Marina... — Nathan começou, a voz oscilando. — Eu passo a vida decifrando códigos e encontrando verdades escondidas. Mas a única verdade que realmente importa para mim hoje é que eu não sei mais quem sou sem você. Você aceita ser a minha parceira, no amor e na vida?
Marina parecia ter congelado. O choro dela foi instantâneo, um misto de riso e soluço.
— É claro que sim! Claro que aceito!
O brinde que se seguiu não foi apenas pelo noivado, mas pela sobrevivência de todos nós. Olhei para o lado e vi Isadora, radiante em um vestido verde esmeralda, amamentando Luan discretamente sob um xale. Ela me enviou um beijo pelo ar, e eu soube que o legado dos D’ Avilas finalmente tinha uma fundação inabalável: o amor.
~~ Isadora ~~
Janeiro chegou com um sol impiedoso e um desafio que eu não previ: o desmame parcial. Voltar para o internato no Hospital Universitário após o nascimento dos gêmeos foi uma das coisas mais difíceis que já fiz.
— Eu não consigo, Leon... olhe para eles — eu chorava enquanto arrumava meu estetoscópio na bolsa.
Luan e Erick estavam no tapete, alheios ao meu drama, tentando alcançar os próprios pés.
— Você consegue, Dra. D’Ávila — Leon disse, pegando-me pelos ombros e me forçando a olhar para ele. — Você lutou muito por esse diploma. Eles terão orgulho da mãe médica que têm, e eu estarei aqui, Vera estará aqui, o batalhão de babás que eu contratei estará aqui.
O primeiro dia foi uma tortura, a cada hora, eu checava o celular. Leon me mandava fotos a cada trinta minutos: "Luan acabou de arrotar", "Erick sorriu para a Luana", "Estamos todos bem".
Aos poucos, a rotina do hospital me envolveu novamente, mas agora, eu era uma médica diferente. Eu tinha a técnica de uma interna aplicada e a empatia de uma mãe que quase perdeu tudo. Meus pacientes sentiam a diferença, eu não tratava apenas doenças, eu tratava almas. E cada vida que eu ajudava a salvar no plantão era um tributo à vida que Leon e eu reconstruímos.
~~ Um ano depois ~~

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