~~ Leon ~~
Dois meses se passaram desde o nascimento e a vida na mansão era um caos delicioso. Eu havia aprendido a trocar fraldas com uma eficiência técnica invejável e conseguia distinguir o choro de fome do choro de sono de cada um dos gêmeos.
Isadora permanecia de licença, e dentro de dois meses voltaria ao Internato, por isso, o papai precisava estar preparado para dar conta do recado. Ela permanecia estudando e se desdobrava entre as mamadas e os livros, provando ser a mulher mais resiliente que já conheci. Mas havia algo que precisávamos encerrar antes da sua formatura.
— Marcos me ligou — falei, enquanto ajudava Isadora a organizar seus livros no escritório. — O julgamento final da Carla foi marcado.
O silêncio caiu sobre nós. Isadora parou o que estava fazendo e me olhou.
— Você quer ir?
— Eu preciso ir. Não por vingança, mas por justiça. Quero olhar nos olhos dela e mostrar que o veneno dela não apenas falhou, mas serviu de adubo para a vida mais bonita que eu poderia ter.
O dia do julgamento foi cinzento, o ar condicionado do Fórum Criminal parecia insuficiente para dissipar a tensão que pairava no Salão do Júri. Eu estava sentado na primeira fileira, Isadora estava ao meu lado, sua mão pequena e firme entrelaçada à minha. Ela era o meu ponto de ancoragem, sem o toque dela, eu sentia que poderia flutuar para longe, perdendo-me nas memórias sombrias que aquele lugar evocava.
No banco dos réus, Carla parecia uma carcaça de si mesma. Trajava o uniforme da unidade prisional, o cabelo loiro, antes impecável, agora exibia raízes grisalhas e fios sem brilho. Mas foram os olhos que me atingiram: eles não mostravam arrependimento, apenas um brilho vítreo de ressentimento acumulado por décadas.
— O Ministério Público chama a ré, Carla D’Ávila, para o interrogatório — anunciou o Juiz, batendo levemente o martelo.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Marcos, meu advogado, inclinou-se para mim. — Mantenha a calma, Leon. Não caia nas provocações dela.
Carla caminhou até o pedestal. O promotor, um homem de voz grave e olhar clínico, começou as perguntas de forma protocolar, mas logo avançou para o núcleo do crime.
— Sra. Carla, a perícia comprovou a presença de arsênio nos restos mortais de Alberto D’Ávila e na corrente sanguínea de Leon D’Ávila. A senhora nega ter administrado tais substâncias?
Carla deu um riso seco, um som que arrepiou os pelos da minha nuca. Ela olhou diretamente para mim, ignorando o promotor.
— Negar? Para quê? — ela começou, a voz rouca, mas ganhando força. — O Alberto... aquele homem era um monstro de gelo. Vocês o viam como o grande empresário, mas eu o via como o homem que desprezava o próprio sangue.
— Sra. D'Ávila, responda à pergunta do promotor — interveio o Juiz, severo.
— Eu estou respondendo! — ela gritou, batendo no parapeito. — Eu o matei, sim! Cada gota daquelas bebidas era um troco pelas noites em que ele me traía com secretárias e vagabundas, enquanto eu mantinha a fachada da família perfeita! Ele olhava para o Lucas, o meu filho, como se ele fosse um erro, um fracasso, sempre comparando-o ao filhinho da falecida, sempre me comparando com ela!
Senti o golpe no peito, desaprovando as atitudes do meu pai. Isadora apertou minha mão, sentindo meu tremor.
— E quanto ao seu enteado, Leon? — o promotor pressionou. — Por que tentar matá-lo também?
Carla virou o rosto para mim, e a expressão dela era de puro ódio.
— Porque ele é a razão da minha desgraça! Se o Leon não fosse esse "perito perfeito", esse homem obcecado por vigiar a vida dos outros, o Lucas e a Aline nunca teriam fugido! Eles fugiram porque tinham medo de você, Leon! Do seu julgamento, da sua frieza! Você os caçou até que eles batessem aquele carro! O sangue do meu filho está nas suas mãos, não nas minhas!
— ISSO É MENTIRA! — eu gritei, levantando-me num impulso incontrolável. — Eles fugiram porque eram cúmplices nas falcatruas do Otávio! Eu sequer sabia que eram amantes!
— Ordem no tribunal! — o Juiz esbravejou, batendo o martelo repetidamente. — Sr. D’Ávila, sente-se ou será retirado da sala!
Caí de volta na cadeira, respirando com dificuldade. As palavras de Carla eram como ácido. "O sangue do meu filho está nas suas mãos". Eu sabia que não era verdade, mas a culpa do sobrevivente é um monstro voraz.
~~ Isadora ~~

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