O silêncio da sala de reabilitação era quebrado apenas pelo ranger dos aparelhos de ferro e pela respiração pesada de Luana. O novo protocolo, desenvolvido por uma renomada neurocientista brasileira, não era um milagre, mas para a mulher que desde os 3 anos de idade vivia em uma cadeira de rodas, parecia a própria definição de um.
O medicamento agia na regeneração das conexões nervosas, e após meses de tratamento, o que parecia impossível aconteceu.
— Eu senti... — sussurrou ela, os olhos marejados fixos nos próprios pés.
Não era apenas a pressão das mãos do fisioterapeuta. Era o frio do azulejo, um formigamento elétrico, doloroso e maravilhoso, que subia pelos seus tornozelos. Com um esforço hercúleo, Luana forçou os músculos das coxas. Suas pernas, que por tanto tempo foram apenas um peso morto, tremeram.
Sob o olhar atento e emocionado de Isadora e Leon, Luana ergueu o quadril da cadeira de rodas e, por cinco segundos eternos, sustentou o próprio peso, ela estava de pé. Aos 25 anos, ela estava, finalmente, voltando a aprender a caminhar em direção ao seu próprio destino.
Enxugando as lágrimas, Isadora buscou o olhar do marido, que chorava deliberadamente, sem acreditar no que estava vendo.
— Olha pra ela, meu amor, a nossa filha está sentindo as pernas! — Ela vibrou, abraçando-o.
— Eu nem acredito que vivi pra ver isso… Mal posso acreditar. — Leon dizia com profundo encantamento, lembrando o quanto sua filha já havia sofrido desde o acidente.
No dia seguinte, em um sábado à noite, Leon reuniu famíliares e amigos com o pretexto de comemorar o progresso da filha.
As tias de Luana, Beatriz e Amanda, junto com seus respectivos maridos e filhos, estavam presentes. Nathan e Marina, os melhores amigos de seus pais, também apareceram com Priscila, sua filha, além de outros amigos da família.
A casa estava cheia e barulhenta, do jeito que o patriarca gostava. Luana circulava entre os convidados explicando um pouco sobre o tratamento que vinha fazendo, achando engraçada a forma como o pai havia transformado a situação em um grande evento.
— Você não acha que exagerou um pouco, papai? — Luana disse.
— De forma alguma, sua conquista é importante, hoje é um grande dia.
— Ele tem razão, princesa, você merece e precisa comemorar com as pessoas que te amam e torcem por você. — Daniel, o namorado de Luana, parecia nervoso, ajustando a todo tempo o seu terno impecável.
Leon olhou para o genro com apreço, em seguida o chamou num canto.
— Acho que agora é um bom momento.
— Tem certeza? Estou nervoso.
— Tenho sim, vou abaixar a música e chamar a atenção de todos para te ajudar.
Leon desligou o som e se posicionou em um ponto mais elevado da escada. O tom sempre firme e imponente de sua voz, fez com que todos se calassem de imediato.
— Eu gostaria de agradecer a todos pela presença, por estarem ao nosso lado comemorando uma conquista tão importante. Hoje é um dia especial para todos nós, e principalmente para a Luana, e eu gostaria de passar a palavra para o namorado dela, que preparou algo…
Leon desceu, indo ao encontro da esposa, que observava a cena curiosa.
— O que está acontecendo? — Isadora perguntou.
— Espere e verá…
— Hoje é um dia especial, como meu sogro falou, e eu gostaria de dizer que estou orgulhoso, e nem um pouco surpreso, pois desde que conheci a Luana, vejo uma mulher forte e determinada, sempre capaz de alcançar tudo que anseia…
Luana sorriu, sentindo as bochechas corarem.
— Mas essa reunião hoje, foi apenas um pretexto, criado… por mim.
— O que? — Ela o olhou com um misto de confusão e expectativa.
— O que ele vai fazer? — Luan, um dos irmãos dela, cochichou no ouvido do pai.
— Você já vai ver… — Leon disse com expectativa.
Após um breve discurso, Daniel se ajoelhou em frente a cadeira de rodas de Luana, tirando uma caixinha de veludo do bolso.
— Aceita se casar comigo, princesa?
— Aceito… Claro!
Daniel a ergueu da cadeira, mantendo-a firme em seus braços, momentos antes de beijá-la com carinho. Os convidados vibraram, entre aplausos e assobios, Leon estranhou a expressão da esposa.
— O que foi, meu amor?
— Nada, estou feliz por ela…
— Acho que já te conheço a tempo suficiente para saber que tem algo martelando nessa cabecinha.
— Não é nada, é só que… Esse namoro é tão recente, e ele é neto do Otávio, sobrinho da Catarina. Por mais que tenha nos provado ser diferente, ser um bom rapaz, ainda tenho uma pulga atrás da orelha.
— A Catarina já provou que não tinha envolvimento nas falcatruas do pai. Depois de se recuperar, ela voltou para a Espanha e nunca mais nos incomodou. Quanto ao Otávio, já faleceu, nunca mais será um problema. Não podemos culpar o rapaz pelos erros dos outros.
— Eu sei, é só cuidado excessivo de mãe, só isso…
— Uma mãe maravilhosa, por sinal. — Ele disse beijando-a na testa. — Sempre serei grato por tudo que fez e faz pela minha filha.
— Nossa filha. — Ela corrigiu, abrindo um sorriso terno.
Ouvindo a conversa dos pais, Luan e Erick, os gêmeos, irmãos mais novos de Luana, se entreolharam.
— Esse cara não me desce… — Luan murmurou.
— Então toma uma pra ajudar… — Erick riu, entregando uma taça de bebida para o irmão. — Porque ela disse sim, e você vai ter que engolir.
— Acho bom ir se acostumando, pois eu soube que o cargo dele, bem ao seu ladinho na empresa, está garantido. — Priscila, a filha de Nathan, provocou.
— O que? — Luan a olhou incrédulo.
— Sim, como eu não quis assumir o posto do meu pai, o Leon sugeriu que o Daniel fosse treinado para isso. Já que vai ser o marido da princesinha Lulu, precisa se envolver nos negócios da família. — A moça explicou.
— E isso não deveria ter sido informado a mim? — Luan murmurou. — Por que você sabe e eu não?


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Mãe por contrato: A babá e o segredo do CEO viúvo