“O passado raramente desaparece. Às vezes ele apenas espera o momento perfeito para reaparecer.”
Algumas noites parecem apenas celebrações.
Mas existem momentos em que o passado decide entrar pela porta… sem pedir permissão.
O salão do evento estava cheio de vozes que se sobrepunham em conversas elegantes, risadas discretas e o som constante de taças de cristal se tocando sob a iluminação dourada que descia dos lustres enormes do teto, criando reflexos quentes nas paredes altas e nos vestidos sofisticados que circulavam pelo ambiente.
Conversas sobre negócios, investimentos e alianças se misturavam ao burburinho social típico de eventos daquela magnitude, enquanto garçons atravessavam o salão com bandejas de champanhe e os convidados se moviam de um grupo a outro com a naturalidade de quem já estava acostumado àquele tipo de cenário.
Damian estava ao lado de Elena havia alguns minutos quando um grupo de investidores estrangeiros se aproximou para cumprimentá-lo.
A conversa começou cordial, com apertos de mão e cumprimentos formais, mas rapidamente evoluiu para negócios, estratégia e discussões sobre projetos futuros.
Alessandro também foi puxado para a conversa, e Damian inclinou-se ligeiramente na direção de Elena antes de se afastar.
— Eu volto em um minuto.
A mão dele tocou a dela por um instante breve, quase instintivo, como se aquele gesto silencioso fosse suficiente para garantir que ela estava bem.
Elena assentiu.
Ela permaneceu conversando com a esposa de um empresário italiano que Beatrice havia apresentado poucos minutos antes. A mulher falava com entusiasmo sobre Milão, sobre os restaurantes novos da cidade e sobre como o cenário empresarial italiano havia mudado nos últimos anos.
Elena tentava prestar atenção. Mas, mesmo enquanto mantinha o sorriso educado e respondia às perguntas com cordialidade, seus olhos continuavam procurando Damian pelo salão quase sem perceber.
Era um hábito recente e inevitável.
Foi então que uma voz chegou. Suave, controlada e treinada demais para parecer casual.
— Você deve ser Elena.
Elena virou o rosto lentamente.
A mulher que estava diante dela era, sem dúvida, impressionante. Alta, elegante, com uma postura impecável que transmitia segurança e experiência, como alguém que havia passado muitos anos aprendendo exatamente como ocupar um espaço sem pedir permissão.
O vestido que usava era sofisticado, o cabelo estava perfeitamente alinhado sobre os ombros e os olhos carregavam uma intensidade silenciosa que não pertencia àquela noite.
— Isso é maravilhoso.
A maneira como Valentina pronunciou aquelas palavras carregava um tipo de satisfação que ela claramente não fazia questão de esconder, como se aquele pequeno momento de reconhecimento fosse exatamente o que ela havia esperado desde que decidiu atravessar o salão e se aproximar.
Elena permaneceu em silêncio por um instante, tentando organizar os próprios pensamentos enquanto a lembrança do restaurante se encaixava lentamente naquele novo contexto.
Valentina não havia confundido ninguém. Ela havia se aproximado porque queria vê-la. E agora estava ali novamente, parada diante dela, observando cada reação com uma atenção que parecia quase científica.
A esposa do empresário que conversava com Elena alguns segundos antes lançou um olhar rápido entre as duas mulheres, percebendo imediatamente que aquela troca de palavras carregava um peso que ela definitivamente não compreendia.
Valentina então estendeu a mão com uma elegância impecável, como se estivesse formalizando um encontro que, de certa forma, já havia acontecido muito antes.
— Sou Valentina Orsini
O nome caiu entre elas como algo pesado demais para ser apenas uma apresentação.
Porque Elena não sabia a história inteira, mas sabia o suficiente.

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