“Algumas promessas de amor não são feitas com palavras… elas começam a crescer em silêncio.”
Elena Rossi
Existem momentos em que o coração precisa aprender a guardar um segredo antes que o mundo esteja pronto para ouvi-lo.
Maria foi a primeira a recuperar a compostura.
Ela limpou rapidamente os cantos dos olhos com as mãos e respirou fundo, como quem organiza as emoções antes que alguém pequeno demais para entender tudo perceba qualquer coisa.
Eu fiz o mesmo.
Sophia ainda estava parada no último degrau da escada, olhando para nós duas com aquela expressão curiosa que sempre surgia quando ela sentia que havia perdido algum pedaço importante da conversa.
— Lena… — repetiu, descendo mais dois degraus. — Você ainda não disse por que está chorando?
Troquei um olhar rápido com Maria. A governanta inclinou levemente a cabeça para mim, como quem dizia silenciosamente controle-se, e então abriu um sorriso tranquilo.
— Acho que foi só emoção, senhorita Sophia — disse com suavidade. — A senhorita Elena chegou e nós estávamos conversando.
Mas Sophia já estava olhando diretamente para mim. Minha irmã sempre foi muito inteligente e eu nunca consegui esconder nada dela. Me aproximei devagar me abaixando até ficar na altura dela. Fiz
um pequeno bico exagerado, cruzando os braços como se estivesse chateada.
— Porque alguém esqueceu completamente da própria irmã hoje — murmurei com um tom dramático. — Eu estava com saudades do abraço e do beijo dela.
Por um segundo ela me encarou em silêncio. Depois o rosto dela se iluminou.
— Ah!
Sophia abriu um sorriso enorme.
— Eu achei que você estava triste!
Ela praticamente se jogou em meus braços, envolvendo meu pescoço com força enquanto me apertava em um abraço caloroso.
O impacto me fez rir.
— Está vendo? — murmurou Maria atrás de nós, claramente aliviada.
Sophia plantou um beijo barulhento na minha bochecha.
— Pronto! Agora passou?
Eu ri.
— Passou um pouco.
Ela se afastou um pouco, só o suficiente para erguer o rosto e me observar com atenção, adotando aquela expressão séria.
— Então hoje à tarde eu vou ficar com você o tempo todo.
Arqueei uma sobrancelha.
— Vai?
— Vou — confirmou, muito decidida. — Porque você ficou com saudade de mim e faz tempo que não fazemos um programa de irmãs.
Maria soltou uma pequena risada.
— Então, já que vamos ter um programa de garotas, vou mandar organizar os almoços e levar para minhas duas princesas.
Os olhos de Sophia brilharam e o sorriso largo tomou conta de todo o seu rosto.
— Muito bem tia Maria, eu confio em você, prepara muitas coisas gostosas para nós duas e se o tio Damian chegar mais cedo, diga ´para ela que o programa é de meninas.
Ri achando graça e Maria me acompanhou. Sophia pegou minha mão imediatamente e disse:
— Vamos lá para cima.
Maria cumpriu com o que prometeu. Almoçamos juntas no meu quarto e depois fomos para o quarto de Sophia, onde enchi a banheira com água morna enquanto ela sentava na borda da cama e contava sem respirar direito, tudo que tinha acontecido na escola naquela manhã.
— E a professora falou que a gente vai ter uma apresentação na próxima semana — dizia, gesticulando animadamente. — E a Aurora quase derrubou a tinta azul na mesa inteira!
— Quase? — perguntei, testando a temperatura da água.
— Quase — respondeu ela com uma risada. — Mas a Bia segurou a bandeja antes.
— A Bia salvou o dia então.
— Sim!
Ela tirou os sapatos e pulou para perto da banheira.
— Mas a Aurora ficou muito vermelha.
Ajudei Sophia a entrar na água morna e comecei a lavar seus cabelos com cuidado enquanto ela continuava falando.
— A Aurora disse que quando crescer quer trabalhar no museu também.
— Igual a você?
— Igual a gente — corrigiu ela com convicção.
Sorri.
Enquanto enxaguava os cabelos dela, minha mente voltou, quase sem que eu percebesse, para o mesmo pensamento que havia me acompanhado o dia inteiro.
Sophia sendo tia.
A imagem surgiu na minha cabeça de forma tão clara que me fez prender a respiração por um instante.
Imaginei o rosto dela quando descobrisse. Imaginei o entusiasmo, as perguntas, o jeito como ela provavelmente iria conversar com a minha barriga todos os dias.
— Lena?
— Hm?
— Você ficou quieta.
Sorri.
— Só estava pensando.
— Mas por dentro ele sente tudo de forma muito mais intensa do que deixa transparecer.
Fechei os olhos por um instante.
— E ele vai te amar de uma forma tão profunda… que provavelmente vai querer proteger você do mundo inteiro.
Passei a mão novamente sobre o ventre.
— Porque o seu pai é o homem mais maravilhoso que eu já conheci.
Minha voz saiu mais baixa. Mais cheia de emoção.
— Ele é forte… inteligente… teimoso às vezes… e tem um coração muito maior do que ele deixa as pessoas verem.
Respirei fundo.
— E quando você chegar… ele vai se transformar completamente.
Inclinei levemente a cabeça, como se pudesse ser ouvida.
— Porque você vai ser a coisa mais preciosa da vida dele.
Um silêncio suave preencheu o quarto por alguns segundos. Então continuei, com um sorriso leve nos lábios.
— E a sua tia Beatrice provavelmente vai querer comprar metade das lojas da cidade para você.
Soltei uma pequena risada.
— Brinquedos, roupas, coisas que você nem vai entender para que servem ainda…
Respirei fundo.
— E a Sophia…
Fechei os olhos por um instante.
A imagem da minha irmã surgiu imediatamente na minha mente.
— A Sophia vai ser a melhor tia do mundo.
Minha voz ficou mais suave.
— Ela vai conversar com você o tempo todo. Vai te contar histórias e te ensinar coisas que provavelmente eu e o seu pai nem vamos entender.
Minha mão permaneceu ali, protegendo, guardando.
— Eu já te amo tanto…. — murmurei suavemente.
Respirei fundo, deixando o ar sair devagar. E, pela primeira vez naquele dia inteiro, o silêncio ao meu redor não parecia vazio, mas cheio de esperança, de amor e de uma paz profunda que eu não sentia há muito tempo.
Fechei os olhos por um instante, mantendo a mão protegendo meu ventre.
Damian ainda não sabia. Mas quando descobrisse, não seria apenas a vida dele que mudaria.
Seria o nosso mundo inteiro.

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