Luna Vanessa
Eu estava envolta na penumbra da floresta, guiando-me apenas por meus instintos — que sempre foram terríveis para acampar — e a insegurança bateu forte. O farfalhar das folhas sob meus pés descalços me dava gastura; a imagem fez meu estômago revirar. Continuei até alcançar uma luz à frente. No chão havia vários ossos brancos, desgastados pelo tempo; eu teria que pisar sobre eles para chegar ao outro lado. Os ossos faziam um som oco quando eu os pisava, batendo um no outro. Ouvi aquele mesmo som atrás de mim.
Virei-me e encontrei um grande lobo. Apavorada, tentei correr; tropecei e caí, apoiando as duas mãos nos ossos. Girei o corpo para encarar o lobo, mas ele permanecia no lugar. Em vez disso, olhou para trás, e um pequeno lobinho apareceu. Ele veio em minha direção com passos incertos; o rechonchudo abanou o rabo e lambeu meu rosto, me deixando toda babada.
Abri os olhos devagar. Adrian me segurava forte e acariciava minha cabeça.
— O que houve?
Minha boca estava seca; a garganta, ardendo.
— Fizemos uma conexão forte.
— Ah, sim — respondi, meio atônita. — E eu achando que quem enfiava os dentes nas pessoas eram os vampiros...
Ele continuou apenas me ouvindo paciente minha reclamação.
— Tive um sonho estranho. Acho que não quero conversar sobre esse negócio de lobo até a lua-de-mel acabar, pode ser?
Ele me ajudou a levantar o tronco parame sentar na cama; passei a ponta dos dedos pela marca.
— Achei o filhote bonitinho, carinho — disse ele com um daqueles sorrisos que me derretem inteira.
— Eu não entendi — falei, notando que lá fora o sol já estava alto. — Fui nocauteada.
— Quase isso. — ele passeou a mão alto do meu pescoço até a base da minha coluna.
— Como foi... como foi que nós sonhamos juntos mesmo?
Acho que essa essência dele me deixou meio bêbada.
— Agora nossas mentes estão ligadas — respondeu ele. — Eu não sei como vai funcionar exatamente com você por ser humana. Descobriremos com o tempo.
Ele me puxou novamente para os braços e eu me aconcheguei em cima do seu corpo.
— Seu lobo quis me mostrar o filhote, não foi?
Ele sorriu, e aquele sorriso lindo deveria ser proibido para um homem. Aquele sorriso que derrete o coração e amolece as pernas.
— Por que tenho a sensação de que há algo a mais nessa história?
Levantei-me e fui até a bandeja com as comidas da noite passada. Ele já tinha devorado mais da metade. Meu marido é um esfomeado em todos os sentidos.
— Meu lobo acha que você ficou grávida — disse ele, dando de ombros. — Mas, desde que te conheci, ele não faz outra coisa a não ser me enviar imagens suas com um lindo barrigão. Não se fie muito nisso.
Mas algo me dizia que dessa vez foi diferente.
— Pois avise seu lobo que parei, há poucos dias, de tomar a pílula anticoncepcional. Isso vai demorar um pouco.
Falei com a certeza que não tinha; o sonho fora algo além do normal. Adrian levantou-se e me abraçou por trás.
— Eu só me importo que você tenha parado. O tempo a deusa que escolhe — sussurrou no meu ouvido. Já senti o arrepio na pele; a eletricidade, antes leve, agora era intensa e percorreu todos os meus membros. Senti meu ventre esquentar.
— Eu bato — disse, e fui até a porta.
— Vô. — bati, chamando.
Ele saiu com uma calça jeans desabotoada, sem camisa, o cabelo caindo sobre o rosto e descalço. Será que ele pegou mesmo a Liliane? Funguei forte, mas não senti o cheiro dela; por um instante fiquei aliviada. Ou não; pois agora não fazia ideia de onde ela estivesse. Minha enxaqueca voltou; minha cabeça e meu estômago começaram a doer novamente.
— Estamos procurando a Liliane — disse Aquiles, e meu avô saiu do jeito que estava.
— Ela não seria louca de sair sozinha por aí sem um de nós, seria? — ele perguntou, passando a mão pelos cabelos os deixando ainda mais despenteados.
— Eu não sei. Ela nunca precisou se cuidar dos machos na nossa alcateia, muito menos no Sul — respondi sem pensar.
Ele respirou fundo e saiu pelo corredor, e nós dois o seguimos no encalço.
— Quem está responsável por ela? — ele perguntou.
— Lucila — respondi.
Ele parou, surpreso.
— Ela não tem um guarda? — os dois pareciam querer me acusar de algo.
— Pela deusa! — bufei — Ela está sob o nosso teto.
Apresseamo-nos pelo corredor e fomos à cozinha procurar Lucila. Entramos quase nos espremendo para passar todos de uma vez; meu coração acelerou, tomado pelo pânico de imaginar que algum macho tivesse posto as mãos nela.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...