Artemísia
— Aprecio que tenha vindo pessoalmente verificar, Rei Lucien. Assim posso lhe mostrar como cheguei a essa decisão.
Abri na tela os gráficos com todos os números e estimativas de natalidade e mortalidade ao longo dos séculos.
— Esse estudo é muito detalhado. Talvez eu devesse fazer algo parecido na alcateia do palácio. Com certeza você não começou isso esta semana.
Minha loba respirou aliviada; assim como eu. Nunca se sabe o quanto pode alterar sua vida com a visita desse ser.
Deixei-o analisando os arquivos enquanto peguei alguns morangos. Meu estômago finalmente havia se acalmado, mas uma fraqueza súbita fez minhas pernas bambearam pela falta de energia.
Sentei-me na cadeira à frente dele. Lucien permanecia inclinado sobre o computador, examinando tudo com atenção.
— O Rei aceita? — perguntei, oferecendo a vasilha com os morangos. Ele não me avisou que viria, então não queria formalidades.
— Não, obrigada.
Assenti e levei um à boca.
— Comecei essa pesquisa há dois anos. Na verdade, estava tentando encontrar a cura para o que chamam de maldição dos machos de Garras de Gelo. E ainda estou procurando, aliás.
— Então, pelo que entendi, você escolheu miscigenar o sangue em vez de aceitar um número drasticamente reduzido.
Ele não desviava os olhos da tela.
Engoli devagar antes de responder:
— Ainda procuro outra saída. Mas, no momento, essa é a única alternativa que garante que os lobos com o poder do gelo não entrem em extinção.
Ele se recostou na cadeira, o cenho franzido. O olhar ia da tela para mim, como se pesasse os números.
— Seu avô aprovou sua decisão?
— Sim. É o mais sensato a se fazer. Como o senhor mesmo pode ver.
— Hum… — Ele estreitou os olhos. — Vai contar o restante sozinha ou precisa de ajuda, Artemísia?
Senti a aura dominante dele pressionar meu peito, uma pressão na minha cabeça.
— Certo… mas que fique claro que minha decisão foi baseada nos dados que o senhor acabou de analisar.
Ele retirou sua dominância.
— Não se preocupe. Eu me lembrarei.
Mordi o lábio. O que eu estava prestes a dizer soava como loucura até para mim.
— E se… a linhagem das ômegas douradas realmente existir?
Os olhos dele mudaram. Brilharam de um jeito que não soube decifrar. Curiosidade? Irritação? Fascínio?
— Minha avó contava histórias sobre elas. Nunca levei muito a sério. Sempre achei que fossem apenas lendas…
Penso na melhor forma de falar sem me descredibilizar profissionalmente.
— Histórias repetidas por gerações às vezes carregam memórias. Memórias dos nossos ancestrais. Vou seguir essa pista nos próximos dias.
Ele entrelaçou os dedos sobre a mesa. O tom ficou mais grave.
— Você tem noção do caos que seria se anunciassem a existência dessas fêmeas?
Desviei o olhar.
— O mesmo que aconteceu com minha mãe. Elas seriam caçadas sem descanso. Eu preciso da sua ajuda.
— Seja mais específica. Em que exatamente?
Coloquei outro morango na boca, mastiguei e engoli vagarosamente, ganhando tempo.
— Ainda não pensei nessa parte.
Ele riu, descrente.
— Algo que não envolva trancafiar a fêmea e obrigá-la a parir meu Rei.
Seu sorriso diminuiu. Foi exatamente o que ele fez com minha mãe.
— Você se ressente disso? — perguntou em tom quase leve. — Se não fosse por mim, você não existiria.
Estreitei os olhos, filho de uma puta. Pena não poder dizer o que penso.
— Talvez seja melhor ninguém saber dessa parte da conversa, meu Rei. Por favor.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos. Parecia ciente doseus pensamentos e não se importava nem um pouco.
— Não contarei. Talvez tudo não passe de lendas, no fim. Vou acalmar meus anciãos — no momento, eles acreditam que você está mais louca que Eliz e Adam juntos.
— Obrigada.
A mão dela tremia.
— Lucila… o que houve?
Todos os pensamentos sobre ômegas maltratadas invadiram minha mente.
Ela suspirou.
— O Rei está lá embaixo, no escritório, com a Luna.
Fiquei imóvel.
— Estamos sem uma Luna há décadas. Será que ele vai revogar as ordens dela? Eu queria tanto ir para a universidade…
Meu coração falhou uma batida.
— As ômegas são proibidas de estudar aqui?
Ela inclinou a cabeça, franzindo o cenho.
— Nenhuma fêmea pode. Aqui, as fêmeas cuidam dos filhotes e da casa. Muitas gostam… mas outras prefeririam explorar o mundo, ver coisas diferentes.
Tudo o que eu ouvira nas histórias do meu clã eram relatos de carnificina deixadas por alfas, dor e pobreza.
— E as fêmeas são maltratadas aqui?
Procurei discretamente por alguma marca visível nela.
Lucila pareceu genuinamente confusa.
— Maltratadas? Por quê seriam? Existe uma fêmea para cada noventa machos. Às vezes… chega a ser sufocante de tanto cuidado.
Lucila me encarou por um tempo.
— Me desculpe Lucila, e que de onde eu venho o que contam e que os Ômegas são sempre oprimidos pelos Alfas.
Ela segura minha mão.
— Certo, isso faz séculos. Não somos mais tão selvagens. Claro que de vez em quando aparece um caso aqui e outro alí, mas é suprimido e visto com maus olhos perante a sociedade lupina. E novas fêmeas são bem vindas aqui, caso tenha alguma problema pode morar aqui, nenhum macho ousaria te atacar sob a proteção de Garras de gelo.
Eu ri internamente, agora era ela que achava que eu estava sendo maltratada em algum lugar.
— Obrigada pelo convite Lucila.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...