Artemísia
Felipe tinha sido gentil à sua maneira, embora, no caso dele, nem toda gentileza do mundo adiantasse. Ela tivera por muitos anos a expectativa de perder a virgindade com Aurin; todavia ele sempre a vira apenas como uma irmã. Graças a Selene, seus hormônios se desenvolveram mais tarde, negando‑lhe a vergonha e fazendo transparecer meu cheiro de excitação, como aconteceu com Felipe.
A praga agora sobrevoava o terraço e pousava, batendo as enormes asas. A pele beijada pelo sol lhe conferia um bronzeado bonito, antes tão clara.
— Ei! Você não atendeu minha ligação.
Seu rosto denotava preocupação.
— Aquiles e meu avô estão aqui, e você sabe que eles não deixariam nada ruim me acontecer.
— O ruim deles e o meu são diferentes, você sabe.
Ele debocha. Aquecendo meu peito com sua atenção.
Ele piscou tranquilo. Para um lobo, ver alguém sangrando não significava muito. Como Aurin era meio fada, vivia transitando entre Arcadia, o reino Fae, e o reino dos lobisomens. Tinha comportamentos arcaicos e, ao mesmo tempo, uma doçura que o tornava protetor; morria de preocupação toda vez que eu começava um treino, inclusive me defendia dos meus próprios irmãos nas brincadeiras. Aquiles acusava essa defesa como motivo para que eu não fosse uma lutadora melhor. Sempre amei Aurin; até receber aquela carta e descobrir que não seria possível nenhuma esperança de tê‑lo. Foi uma dor enorme.
E agora ele estava ali de novo. Dei alguns passos e o abracei. Senti quando captou o cheiro de Felipe em mim; o corpo dele enrijeceu.
— Não se preocupe, ele foi... cuidadoso.
— Entendi. Sabe que pode me chamar sempre que precisar, não é?
Passei a mão gentil pela asa.
— Ei! Claro que eu sei, Aurin. Nossa amizade continua; este ano só estarei um pouco... ocupada, por assim dizer.
Quando ele se foi naquela manhã, muros se ergueram entre nós como se fôssemos estranhos sem saber o que dizer. Ele apenas acenou com a cabeça e partiu.
Percorri o território conferindo estufas e pontos estratégicos. As fêmeas tinham o olhar encantado, sentindo o cheiro de Felipe em mim.
— Logo, logo a Luna Artemísia vai nos deixar para cuidar de garras de gelo — comentou Kane, o beta da minha mãe, o único com coragem para dizer aquilo em voz alta.
— Garras de gelo pertence a Aquiles; ele é mais forte e poderoso. É seu direito — retruquei.
— Hum, mas todos sabem que ele terá dificuldade em herdeiros. — ele pausou, eu já conhecia esse tom sonso — Se bem que ouvi dizer que anda visitando certa professorinha.
Voltei furiosa para casa. Eu só tinha feito um pedido. Com todas as fêmeas disponíveis, por que ela?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...