Artemísia
Adrian sequer trancou a porta; apenas se encostou, sem pressa, para tirar a humana do colo de Aquiles.
A boca de Aquiles estava machucada, mas, estranhamente, ele parecia satisfeito.
— Eu nunca vi o demônio de garras de gelo se deixar apanhar tão fácil. Ficando mole? — provoquei.
Gemidos altos começaram a vir do quarto.
— Estou feliz por ele, Temi. Nosso irmão foi abençoado com uma fêmea linda e disposta.
Começamos a descer e Vanessa gritou alto; nós começamos a rir.
— Temi, você pode ter isso. Procure o Beta.
— Você é filho de uma fêmea destinada, Aquiles — respondi — também vai achar o seu par.
Ele baixou o olhar, escolhendo as palavras.
— Mês passado uma prostituta experiente se mijou quando a escolhi —bufou, visivelmente cansado—. Não vou mais fazer isso. Não insista, por favor.
Eu havia levado toda fêmea que conhecia para perto dele, na esperança de que encontrasse alguém que o aceitasse. Aquiles era enorme e selvagem; nenhuma se atrevia. Até as lobas receavam ser despedaçadas por sua fúria. Algumas se ofereciam por curiosidade, mas, até onde eu sei, nenhuma voltou por vontade própria.
— Então como vamos ajudar a cunhada a proteger a família dela? — ele perguntou mudando de assunto.
Expliquei meu plano detalhadamente e fizemos alguns ajustes.
— Você vai ficar ótima com as roupas da cunhada! — Aquiles me alfinetou. — Vou entrar na casa dela como amiga; somos acostumados à nudez entre os meus, mas na frente dos humanos é diferente. As roupas da Vanessa são ousadas; confesso que me sinto um pouco tímida mesmo sendo loba. Tenho problemas de autoestima: na minha família todos são guerreiros sanguinários, até minha mãe. Eu detesto sangue; prefiro números e códigos.
— Do que está falando? — retruquei. — Eu fico linda com qualquer roupa!
Perto da hora do almoço, finalmente Adrian se dignou a descer, com a satisfação estampada na cara.
Aquiles manteve o tom neutro enquanto contava nosso plano. Adrian deu a aprovação, mas não em tudo: ele não queria entrar na casa dela apenas como amigo.
— Você não acha que vai parecer estranho para os humanos um “namorado” aparecer assim? — rosnou Aquiles. — Ela foi noiva, estava apaixonada e quase viúva… aos olhos deles, Adrian.
— Eu não quero ser amigo. Quero o direito de dormir no quarto dela.
**Vanessa Bragança
— Por mim, poderíamos ir hoje mesmo — respondi.
— Então hoje à noite você vai com a Temi; ela é discreta — explicou Adrian — Não haverá suspeitas. Assim que ela terminar a parte dela, eu chego lá; Aquiles me ajudará na retaguarda.
Obrigada, Deus, por enviar ajuda antes que eu perdesse meu pai.
Arrumei a mala e peguei um casaco de zíper emprestado do Adrian, disse que era “para o frio”, mas, na verdade, eu precisava sentir o cheiro dele. Vou, realmente, procurar uma psicóloga quando chegar.
O jatinho pousou e um carro com motorista — também lobisomem — nos levou para casa. Já conseguia reconhecer um padrão: ombros largos, olhar marcante e altivo, andar de quem não teme nada.
Em casa, apresentei Temi como uma amiga da viagem e avisei aos funcionários que ela teria livre acesso à casa. Infelizmente faltava a chave do escritório do meu pai — só ele tinha — e eu não sabia o que fazer. Não podia contar que Temi era lobisomem. Posso?
Temi não perdeu tempo: entrou na rede e começou a procurar evidências. Eu liguei para meu pai avisando que já estava em casa; também avisei amigas e familiares.
Abri o closet e encarei o grande e luxuoso vestido de noiva dos meus sonhos, o que escolhi com tanto empenho cada detalhe para casar com Gabriel Santos. No quarto, ainda estão todas as fotos nossas, os ursinhos e as lembranças da minha ingenuidade.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Laçando o supremo que me traiu.
A história é fascinante, parabéns ao autor(a). Ela nos vicia a querer saber mais....
Olá, gostaria de saber se já lançou mais algum capítulo além desses que estão aqui. E quando irão lançar?...