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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 152

O carro se movia e eu tentava acompanhar. Não o carro em si, o mundo. Que estava voltando em pedaços, como sinal de rádio captado aos poucos depois de muito estático: primeiro as formas sem nitidez, depois as cores voltando, depois os sons chegando no volume certo, depois o pensamento ganhando mais velocidade. O sedativo estava perdendo efeito, e meu corpo ia acordando camada por camada com lentidão, recuperando o terreno com a cautela de quem não sabe ainda o que vai encontrar quando chegar lá.

Conseguia ver a Alícia no banco do motorista. A Geórgia no passageiro. O asfalto passando pela janela. Uma cidade normal com pessoas normais fazendo coisas normais, completamente alheia ao fato de que nas últimas horas eu tinha estado em um quarto de hospital com uma mulher tentando me matar enquanto meu marido estava numa cirurgia de emergência alguns andares acima.

A vida seguia. Ela sempre seguia.

A Geórgia virou do banco do passageiro e me estendeu uma garrafa de água sem dizer nada. Peguei e bebi até o fim praticamente em uma golada só.

— Arthur. — Falei, quando terminei. — Como ele está? Sem mentiras. Eu aguento a verdade.

— Aparentemente — a Geórgia começou, com aquela hesitação de quem está calibrando o quanto revelar — por mais que ninguém tenha me contado direito, você está grávida e...

— E medicada. — Interrompi. — Não vou surtar. Aliás, vou. Se vocês não me contarem a verdade.

— A verdade é que a gente não sabe. — Alícia falou do banco do motorista, sem rodeios e sem olhar para o espelho retrovisor. — A última informação que tive é que ele estava estável. Mantido em coma induzido para controlar a dor e reduzir o esforço do organismo enquanto se recupera. As próximas horas vão definir se há complicações que não apareceram durante a cirurgia. — Uma pausa curta. — Satisfeita agora? — Havia uma irritação contida na voz dela. — Não tem nada que você possa fazer a respeito, Zara. Então ao menos tenta não ser um problema com o qual a gente precise lidar agora também.

— Uau. — Geórgia olhou para a Alícia uma expressão de quem não sabe se ficou chocada ou impressionada. — Ela é sempre assim tão...?

— Filha da puta? — Completei. — É, é sim. — Fiz uma pausa rápida antes de me voltar para Alícia. — Alícia, para o carro.

— O quê? — Ela soou como quem ouviu, mas não assimilou.

— Para o carro. Agora!

Um suspiro fundo. Mas ela obedeceu e o carro desacelerou e estacionou no primeiro lugar que apareceu.

Desci primeiro. As pernas protestaram nos primeiros passos com aquela fraqueza residual que o corpo mantém depois da sedação, como se os músculos precisassem de um momento para lembrar que eram para ser usados. Contornei o carro pelo lado de fora, fui até a porta do motorista e abri.

— Desce.

— Eu não vou...

— Desce!

Um olhar. Depois ela desceu.

E antes que ela terminasse de processar o movimento, a puxei para um abraço.

Não foi planejado. Foi o tipo de coisa que o corpo faz antes que a cabeça dê a instrução.

Então senti ela desabar.

— Não vou deixar nada te acontecer. — Falei, prometendo com toda a certeza que eu podia dar. O tipo de promessa que eu sabia fazer e sabia cumprir. — Você salvou minha vida.

— Hum. — O sorrisinho apareceu no canto da boca dela, pequeníssimo, mas estava lá. — Eu só retribui. Você salvou minha vida primeiro naquele cativeiro e eu não gosto de ficar devendo nada.

— Até porque não somos amigas — brinquei, achando que o momento pedia.

— Não somos. — Ela confirmou, com aquela rapidez de quem estabelece o terreno antes que alguém mude as regras.

— Apesar disso. — Continuei, porque havia algo que precisava ser dito e eu não sabia quando voltaria a ter coragem de dizer. — Você pode contar comigo, sabe? Se precisar de alguém para desabafar, ou sei lá. Eu estava lá. Naquele quarto de cativeiro e naquele quarto de hospital, eu estava lá. Não tenta fingir que nada disso aconteceu e simplesmente seguir a vida, porque aconteceu. E você precisa lidar com isso. Sei que passamos por experiências completamente diferentes, mas talvez eu seja o que você tem mais próximo de...

— Não diga amiga... — ela me conta, tentando dar leveza ao momento.

— De alguém que entenda — concluo.

Ela ficou me olhando por alguns segundos.

— Obrigada. — Murmurou, em voz baixa.

— Ei. — A voz da Geórgia veio pela janela do carro, com um tom desajeitado de quem estava tentando não interromper, mas não tinha como não interromper. — Sei que vocês duas estão tendo um momento aí. Mas o Thomas está no telefone. E disse que é urgente.

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