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INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO romance Capítulo 108

Não sabia quanto tempo ficamos ali.

O tempo dentro daquele quarto funcionava de forma estranha — sem janela para ver o sol, sem celular, sem nada que marcasse a passagem das horas além da fome crescendo e da lâmpada continuando a piscar no teto com aquela intermitência irritante de coisa que se recusa a morrer de vez. Em algum momento eu e Alícia tínhamos simplesmente parado de lutar contra o silêncio e ficado deitadas cada uma do seu lado da cama, olhando para o teto. Trocávamos uma ou outra ironia quando o quieto ficava pesado demais. Nenhuma das duas tentava fingir que estava bem.

Então alguém enfiou pela porta dois pães duros com frios e dois copos de suco de laranja.

Caí em cima do meu imediatamente, devorando com aquela urgência de quem não come desde o início da manhã e cujo estômago grávido tinha opinião própria sobre o assunto. O pão era duro, os frios eram passados, o suco era de caixinha. Era a melhor coisa que eu comia em horas. Tá, na verdade, era a única, mas, ainda assim... era a melhor.

Alícia ficou só me observando por um instante.

— O quê? — perguntei, ainda com a boca cheia.

— Nada. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Só esperando pra ver se isso não vai te matar. Vai que está envenenado.

Ri abertamente, e a risada doeu um pouco na cabeça ainda latejante.

— Como se você fosse sobreviver a isso sem minha ajuda.

— Como se eu fosse sobreviver a isso com a sua ajuda — ela retrucou, mas pegou o próprio pão e deu uma mordida pequena e cuidadosa, como quem está testando a situação antes de se comprometer com ela.

Ficamos em silêncio por um momento, mastigando.

— Você não está realmente grávida, está?

Olhei para ela.

— Doze semanas.

A verdade saiu sem que eu planejasse. Talvez porque estivesse entalada há tempo demais, acumulando camadas desde o hospital, desde o cofre da Genevieve, desde o restaurante. Talvez porque a única pessoa que sabia além de mim estava provavelmente ainda naquela salinha com o meu marido, o que tornava a Alícia, por pior que fosse a alternativa, literalmente a única opção disponível para ouvir meu desabafo. Talvez porque eu achasse que ia morrer ali de qualquer jeito, e morrer com um segredo a menos parecia levemente melhor do que morrer carregando todos eles de uma vez.

Alícia ficou me olhando por um segundo. Depois estendeu o próprio pão na minha direção com uma naturalidade de quem tomou uma decisão e não quer fazer cerimônia em cima dela.

Parei de mastigar.

— Ainda não se convenceu que não está envenenado? — perguntei, sem pegar.

— Você está comendo por dois.

Fiquei parada por um instante que foi mais longo do que devia. Aquilo não era o tipo de gesto que eu esperaria de Alícia Lacerda em nenhuma circunstância imaginável. Não dentro daquele quarto, não naquela situação, não comigo. E ainda assim ela estava com o pão estendido, esperando, sem fazer drama nenhum em cima disso.

— E você está comendo por um — respondi, dando de ombros. — Não consigo te carregar nas costas para fora daqui, então come.

Ela demorou alguns segundos, mas recolheu o pão de volta com um gesto mínimo de cabeça e deu mais uma mordida.

— Arthur não sabe. — As palavras saíram dos meus lábios antes que eu decidisse soltá-las. — Que estou grávida. Ele não sabe.

Alícia não parou de mastigar, mas ergueu os olhos.

— Por quê?

Dei de ombros.

— Não sei, me diz você. Eu ouvi os veteranos falando que foi você.

— Quais veteranos? O Rômulo?

— Acho que estava entre eles, mas...

— O Rômulo nunca aceitou seu fora. — Ela me olhou com aquela seriedade direta que era, paradoxalmente, uma das poucas coisas genuínas nela. — Você sabe muito bem o que ele queria com você naquela noite. Não me admira que te dopasse pra isso, o cara não tem limites para o que quer.

— E por que colocariam a culpa em você?

— Porque é mais fácil. — Ela deu de ombros, sem mágoa aparente, só constatação. — Visto que nunca nos demos bem. Alguém tinha que levar a culpa se a bomba estoura, não é? E certamente nunca é o culpado de verdade.

Fiquei em silêncio por um momento, deixando aquilo assentar.

O que ela dizia fazia sentido. Fazia sentido de um jeito que eu não queria que fizesse, porque significava que o tempo todo eu tinha esperado ataques de pessoas que não eram as culpadas — reagindo, me defendendo, construindo muros contra as pessoas erradas — enquanto a primeira a me apunhalar pelas costas tinha sido alguém de quem eu jamais desconfiaria. Alguém que eu tinha escolhido confiar. Alguém que eu tinha chamado de amiga.

Engoli aquilo em silêncio.

— E por que eu deveria acreditar em você? — perguntei.

Alícia me olhou por um segundo, com aquela expressão de quem está pesando se a pergunta merece uma resposta honesta.

— Ah, não deveria. Não mesmo. Eu não gosto de você. — Pausa. — Mas como é mesmo aquele ditado? "Cuidado com a sonsa, porque da puta você já sabe o que esperar." Definitivamente eu não sou sonsa, Zara.

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